Ela realmente não gostava da Gabriela.
Mas a Elena, por outro lado, era uma pessoa muito boa.
"Clari,"
O humor sombrio de Elena se suavizou um pouco, sem motivo aparente, ao ouvir aquela voz suave. Seu tom ganhou até um leve sorriso. "Hoje mesmo volto para Cidade Alta. Assim que você organizar sua agenda, pode vir à Mansão Vento me tratar quando quiser."
Clarissa ficou um pouco surpresa. "Tão rápido assim?"
Clarissa conseguia sentir o quanto Elena nutria sentimentos profundos e uma certa culpa em relação à filha mais nova.
Em teoria, tendo acabado de reencontrar a filha, Elena deveria passar ao menos alguns dias com ela na velha casa.
Elena percebeu o que estava implícito nas palavras dela, mas não disse nada. Apenas sorriu e brincou: "O que foi? Não vai me dizer que não quer mais conviver comigo, né?"
"De jeito nenhum."
Clarissa respondeu sem pensar. "Eu prometi que cuidaria da sua perna até você ficar boa, e vou cumprir até o fim."
Mas, curiosamente, isso não deixou Elena mais tranquila.
O que aquela menina queria dizer era que, daqui pra frente, elas seriam apenas médica e paciente.
E Clarissa, de fato, tinha essa intenção.
Caso contrário, com todos os ressentimentos entre ela e Gabriela, Elena, presa entre as duas, só sofreria ainda mais.
Depois de desligar, Clarissa jogou o celular de lado, incapaz de não pensar nos próprios pais.
Onde estariam os pais dela?
Será que eles sentiam sua falta, como a Família Torres sentiu saudades de Catarina Torres um dia?
Aeroporto de Cidade Alta.
O avião deixou um longo rastro de nuvem no céu antes de pousar suavemente na pista.
Cecília Goulart tirou os óculos escuros, empurrou a mala com uma mão e seguiu pelo saguão do aeroporto como quem já conhecia tudo de olhos fechados.
De longe, Patrick a reconheceu imediatamente.
Primeiro, porque era familiar.
Segundo, porque era impossível não notá-la.
Diferente da docilidade de Clarissa, seus traços eram marcantes e irradiavam uma beleza quase agressiva.
Os cabelos longos e ondulados caíam despreocupadamente sobre os ombros, a camisa de seda vinho realçava sua pele, e a barra da camisa estava displicentemente enfiada em uma calça jeans de corte impecável.
A cada passo firme, o tornozelo delicado e alvo aparecia, como se deixasse uma marca no coração de Patrick.
Ela estava ainda mais confiante e exuberante do que nos tempos da universidade.
O assistente tinha marcado a passagem para o dia seguinte, mas ela trocou para hoje, preocupada com Clarissa.
O alvoroço na internet estava enorme, quase como um linchamento virtual. Se não visse com os próprios olhos, não conseguiria ficar tranquila.
–
Assim que a reunião terminou, Felipe olhou imediatamente para a pessoa sentada no sofá, perdida em pensamentos.
A garota estava encolhida, com o queixo apoiado nos joelhos, sem se saber exatamente no que pensava.
No geral, parecia um pouco triste.
Felipe se aproximou, abaixou-se e a puxou para o próprio colo, a voz levemente grave. "Pensando em quê?"
Clarissa levou um susto, agarrou o pescoço dele por reflexo, e, quando percebeu, ele já estava sentado no sofá.
Ela, sentada em seu colo.
Muito íntimo.
Tão íntimo que parecia que todos os mal-entendidos já tinham sido resolvidos.
Mas naquele momento, Clarissa não conseguia pensar em outra coisa. Olhou para os olhos profundos do homem e sentiu as lágrimas virem sem motivo.
Como no passado, quando era maltratada em outros lugares, conseguia suportar calada; mas bastava ele demonstrar preocupação, que ela sentia vontade de chorar.

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