Ao ouvir a voz escandalosa de Lucas, o menino olhou para ele, piscou os olhos escuros por alguns segundos e abriu um sorriso, mostrando os dentinhos, o primeiro desde o acidente.
Sua expressão parecia dizer: "Tio, está tudo bem, não dói!"
Lucas se aproximou, sentou ao lado dele e se inclinou para abraçar sua barriguinha, que parecia menos cheia por causa da doença.
— A vovó fez sopa para você. O tio toma com você, aí você melhora logo, tá bom?
Carlitos levantou a mão, deu um tapinha na cabeça bagunçada dele e soltou uma palavra: — Tomo.
Lucas virou na mesma hora para Elisa: — Mãe, traz logo o café da manhã. Eu dou pra ele.
— Ah, tá bom. — Elisa montou a bandeja, pegou o café da manhã nutritivo que havia preparado cedo e colocou tudo ali.
— E o que vocês estão esperando?
Lucas pegou uma colherzinha para alimentar Carlitos aos poucos e, ao levantar a cabeça, viu Oceana e Fernando parados ao lado da cama.
Ele disse num tom ranzinza: — Vocês não cuidaram bem da criança, o que é imperdoável, mas já que cuidaram dele a noite toda, podem comer. Comam logo.
Ele parecia um adulto em miniatura, com a insatisfação estampada no rosto.
Elisa bateu de leve na cabeça dele e se explicou para Oceana.
— Quando ele soube que o Carlitos se machucou, também deu uma bronca em mim e no seu pai. Ele só está com pena do Carlitos.
Oceana fungou.
Naquele momento, ela compreendeu em um nível mais profundo o que significava ser família.
A família é aquela que pode brigar com você e criticá-lo, mas sempre torce pelo seu bem-estar.
— Eu sei. Acha que eu não sei diferenciar as coisas?
Ela deu um sorriso e disse com segundas intenções: — Mãe, se você tem que justificar as atitudes dele para mim, é porque não me considera da família?
Elisa a olhou torto: — Eu tô me justificando pra você? A questão é que o Fernando ficou trabalhando a noite toda, afinal, vocês nem casaram de novo, né? E mesmo que tivessem, ele não é quem o Lucas deve culpar.
Casar de novo? O coração de Oceana deu um salto de confusão.
Lucas entregou a colher para Fernando contra a vontade.
Fernando pegou a colher, e sentiu uma satisfação grande ao ouvir Lucas chamá-lo de cunhado.
— Então cuidem bem dele. Eu venho ver ele depois da aula.
Lucas saiu a contragosto, olhando para trás a cada passo.
Marcel Couto o acompanhou até a porta e avisou Elisa: — Fique com eles no café da manhã. Quando eu voltar, eles podem ir para casa descansar e eu ajudo você a cuidar do Carlitos.
Elisa acenou: — Vai lá, cuidado na estrada.
— Eu mesma cuido dele. O médico disse que o Carlitos vai melhorar a cada dia, vocês não precisam revezar.
Oceana, que tinha acabado de pegar um pãozinho para comer, colocou de volta ao ouvir aquilo.
Depois que Marcel e o filho saíram, Elisa se virou e suspirou: — Eu sei que você não quer deixar ele, você se preocupa com seu filho e eu também me preocupo com a minha. Olha só para você, emagreceu numa noite e está com a pele amarelada.

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