Os termos haviam sido ditados, e a realidade daquela prisão de luxo cobrou o seu preço logo nos primeiros dias. Clara não era de se entregar ao desespero, mas a matemática do contrato pré-nupcial pesava em sua mente a cada amanhecer. Cinco milhões de reais. Era o valor da sua liberdade ao fim daqueles três anos. Se quisesse caminhar para longe dos Albuquerque e dos Mendes sem carregar correntes ou depender da caridade de ninguém — já que seu pai jamais pagaria por sua saída —, ela precisava conseguir aquela quantia por conta própria. Deitada na cama de solteiro do quarto de hóspedes, ela começou a traçar metas silenciosas, calculando cada centavo que poderia economizar ou gerar através de sua única paixão: a escultura.
Na rotina da casa, a presença de Marta revelou-se uma surpresa ambígua. Clara sabia, pelos olhares atentos e pelos relatórios telefônicos discretos que a governanta fazia no final da tarde, que a mulher era a espiã oficial de sua sogra, Regina. No entanto, Marta operava com uma cortesia profissional impecável. Ela não interferia na vida pessoal de Clara, não fazia perguntas invasivas e mantinha o triplex em perfeita ordem, limitando-se a relatar o óbvio para a matriarca dos Albuquerque. Havia um pacto velado de não agressão entre as duas.
Uma semana após o casamento, o isolamento de Clara foi quebrado por uma visita surpresa que trouxe o primeiro vislumbre de cor à sua nova existência. A campainha tocou e, ao abrir a porta, Clara deparou-se com Alice e a tia-avó Leonor. A velha senhora, embora debilitada, exibia um sorriso terno que cheirava a alfazema, enquanto Alice liderava dois entregadores que carregavam caixas pesadas de madeira.
— Nós viemos trazer o seu coração de volta, meu girassol — disse a tia-avó Leonor, abraçando a sobrinha-neta com toda a força que seus braços cansados permitiam.
O presente que as duas haviam planejado em segredo era a reconstrução do ateliê de Clara. Alice usara sua influência e recursos para resgatar todos os materiais de escultura, argila, ferramentas de modelagem e até mesmo o torno elétrico que Clara deixara na mansão Mendes. Para evitar os olhos curiosos de Marta e manter o seu refúgio totalmente protegido, Clara escolheu uma imensa despensa isolada, localizada no sótão do triplex. Era um espaço de teto baixo, iluminado por uma claraboia solitária, mas perfeito. Ali, entre o cheiro de terra úmida e o silêncio do topo do edifício, Clara começou a passar suas tardes moldando suas angústias em formas de barro.


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