Alis virou-se lentamente, encontrando-se com aquele peitoral largo. Ele estava ainda mais próximo do que ela imaginava. Teve de erguer o queixo para encarar seu rosto. De perto, ele era ainda mais impressionante. Os olhos não eram totalmente castanhos; tinham pequenas lascas de âmbar perto das pupilas, que capturavam a luz ambiente e as refletiam com uma intensidade quase dourada. O cheiro dele era limpo de sabão e água, com um fundo amadeirado que rivalizava com o seu.
Ela não permitiu que o susto a dominasse. Inclinou a cabeça, um sorriso pequeno e controlado em seus lábios.
— Obrigada. Acho que o cetim também ajuda.
Samuel sorriu, um movimento lento que fez com que pequenas linhas aparecessem ao redor de seus olhos. Era um sorriso carregado, que não chegava totalmente a ser de alegria, mas de avaliação.
— O cetim ajuda, sem dúvida. Mas é a maneira como você o veste que faz a diferença. Como se não precisasse dele, mas tivesse concedido ao tecido o privilégio de tocá-la.
A observação era absurdamente ousada. Alis sentiu outra onda de calor. Ele não a elogiava; a decifrava.
— E você é especialista em tecidos? — ela retrucou, tomando um gole de champanhe para umedecer a boca subitamente seca.
— Sou arquiteto. Entendo de texturas, volumes… e como eles interagem com a forma. — Seus olhos desceram, percorrendo-a do decote até a bainha do vestido, num movimento deliberadamente lento. — E você, Alis? O que faz quando não está desfilando em verdes espetaculares em casamentos à beira-mar?
— Como você sabe meu nome?
— Minha irmã não para de falar da amiga arquiteta genial que viria de São Paulo especialmente para o casamento. Pelo tom dela, você é a pessoa mais interessante que já pisou na faculdade. — Ele pegou o copo de uísque de uma bandeja que passava, seus dedos longos envolvendo o cristal. — Ainda não respondeu minha pergunta.
— Sou arquiteta também. Só que, ao contrário de alguns, — ela disse, com uma ponta de provocação, — projeto mais do que arranha-céus egoístas. Gosto de espaços que as pessoas possam chamar de lar.
Ele riu, um som baixo e genuíno que pareceu surpreendê-lo tanto quanto a ela.
— Tocou no ponto. Meus arranha-céus são um tanto… impessoais. Egoístas, como disse. — Ele se aproximou um passo, o cheiro de uísque e madeira envolvendo-a. — E onde você constrói esses lares tão acolhedores?
— Principalmente em São Paulo. Escritórios, lojas… às vezes uma casa. Estou aqui até segunda-feira.
— Apenas?
— A vida real espera.
— A vida real — ele repetiu, como se o conceito lhe fosse estranho. — E essa vida real em São Paulo… tem alguém esperando por você nela?
A pergunta era um território perigosíssimo. Alis manteve o olhar firme.
— Isso é da sua conta?
— Tornou-se da minha conta no momento em que você usou esse vestido e decidiu ficar parada aqui, sob essa luz, sabendo perfeitamente que eu estava te observando.
A audácia dele era de tirar o fôlego. Ela sentiu um frio percorrer sua espinha, uma mistura de indignação e puro, inegável prazer.
— Você presume muito, Samuel.
— Presumo com base no que vejo. E no que sinto. — Seu olhar escorreu para sua boca e voltou aos seus olhos. — E você, Alis, o que sente?

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