“Algumas casas não são construídas para abrigar pessoas, mas para esconder tudo o que foi perdido dentro delas.”
Amélia Clark
Acordei com a certeza desconfortável de que estava em um lugar onde não deveria estar e com alguém que eu não lembrava de ter escolhido.
O celular vibrava insistente ao lado da cama e, antes mesmo de abrir os olhos, soube que estava em um lugar que não reconhecia. O colchão era macio demais, o ar gelado, e o cheiro de bebida me deixou com náusea, mas outro ruído me fez arregalar os olhos. A respiração tensa de alguém muito perto.
— Não. Agora não. — A voz masculina saiu baixa, controlada, mas carregada de urgência. — Você tem certeza de que ele saiu sozinho
Abri os olhos devagar e vi o homem sentado na beira da cama, de costas para mim, o telefone pressionado contra a orelha, os ombros rígidos. Costas bonitas e fortes.
— Desde quando ninguém o viu — continuou. — Não, não desligue.
Sentei com cuidado, puxando o lençol até o peito num reflexo tardio, e foi nesse movimento que a memória da noite anterior voltou em flashes desconexos, o bar, as doses, a gargalhada vazia, o rosto dele, depois o escuro absoluto. Meu coração disparou.
Ele encerrou a ligação de forma brusca e se virou para mim, os olhos frios demais para aquela situação, mas tomados por um desespero contido que não combinava com a postura impecável.
— Fique calma — disse. — Não aconteceu nada.
Demorei alguns segundos para conseguir falar.
— Nós fizemos alguma coisa — perguntei, a voz falhando apesar do esforço para mantê-la firme.
Ele me observou por um instante longo, como se estivesse escolhendo as palavras mais eficientes, não as mais gentis.
— Não. Eu não sou um estuprador.
O impacto da frase me fez prender a respiração.
— Eu não quis dizer isso — respondi rápido. — Eu só acordei aqui e não lembrava…
— Pelo jeito — interrompeu, passando a mão pelo rosto — eu sou apenas um babaca que deixou o filho sozinho para cuidar de alguém que não vale nada. E tudo bem, já fiz escolhas ruins antes. Levante-se e se vista.
Aquilo doeu, mas não rebati.
— Seu filho — repeti. — O que aconteceu
— Fugiu de casa — respondeu sem rodeios.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Ele se levantou e começou a andar pelo quarto, explicando que a camareira havia retirado minha blusa a pedido dele porque estava suja de vômito, e que não havia nenhum outro motivo por trás disso. A forma como dizia era meticulosa, quase profissional, como se estivesse encerrando um assunto que não merecia mais espaço.
— Vou chamar um táxi — concluiu. — Você precisa ir.
Vesti minhas roupas em silêncio, sentindo o peso do constrangimento se misturar a algo mais profundo, um vazio que não tinha nome. Quando saí do quarto, não olhei para trás. Recusei o táxi assim que cheguei à rua, porque precisava andar, respirar, sentir que ainda estava inteira.
Caminhei algumas quadras sem direção até ouvir um choro baixo, contido, vindo de um canto entre dois prédios. Parei por instinto e me aproximei devagar.
Um menino estava encolhido com os joelhos puxados contra o peito, o rosto molhado de lágrimas. Ajoelhei-me a uma certa distância e falei com cuidado.
— Está tudo bem. Eu não vou te machucar.
Ele ergueu o rosto devagar, os olhos assustados demais para alguém tão pequeno.
— Você está perdido — perguntei.
Ele assentiu.
— Qual é o seu nome

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