“Alguns homens aprendem a controlar tudo, menos o vazio que carregam por dentro.”
Amélia Clark
Ethan Harrington não parecia um homem disposto a ouvir.
Parecia um homem acostumado a decidir quem podia ficar de pé diante dele.
Por um instante, o silêncio tomou conta do escritório, pesado o bastante para me intimidar. Eu me sentia pequena diante daquele homem poderoso e daquele olhar intenso que não se afastava do meu.
Ethan não piscava. E eu tinha a estranha certeza de que, se não fosse a maneira como ele me encarava, eu já teria desmoronado ali mesmo, pois aquele olhar intenso, era o que me mantinha de pé.
Havia algo em sua postura que ia além da autoridade. Cada músculo do seu corpo parecia permanentemente em alerta, como se estivesse sempre preparado para um impacto que já havia acontecido e que continuava acontecendo dentro dele. Ele parecia um homem que não relaxava, não descansava, não se permitia existir fora do controle que ele mesmo impunha.
E, ainda assim, tinha sido exatamente isso que a mulher que ele amava fez. Tinha ido embora e abandonado tudo.
Puxei o ar devagar, tentando manter o pouco de equilíbrio que ainda me restava.
— Sente-se — ele ordenou, apontando para a cadeira diante da mesa.
Obedeci.
A cadeira era confortável, quase acolhedora, o oposto do espaço frio e intimidador que me cercava. Afundei nela fingindo firmeza, enquanto minhas mãos tremiam fora de vista.
— Antes de começarmos quero deixar claro que a minha decisão não tem nada a ver com o que aconteceu ontem à noite.
Corei desviando o rosto lembrando do fiasco da noite anterior e de acordar seminua ao lado de um homem arrogante que está prestes a se tornar o meu patrão.
— Lembro que me disse que estava precisando de um emprego.
— Sim.
— Me diga Amélia, tem alguma experiência com crianças?
— Trabalhei três anos em um orfanato. Nove meses como assistente pedagógica.
— Por que saiu?
A pergunta veio direta e precisa, sem qualquer suavidade.
Eu poderia dizer a verdade. Que meu corpo tinha falhado, que meu cérebro agora abrigava algo que podia me matar, que dentro da minha bolsa estava o verdadeiro motivo de eu não ter sido “dispensada”, mas afastada. Mas, em vez disso, respondi:
— Redução de equipe.
Ele ergueu os olhos, e naquele instante eu soube que ele sabia que eu estava mentindo. Não porque tivesse provas, mas porque homens como Ethan reconheciam mentiras do mesmo modo que reconheciam as próprias cicatrizes.
Ainda assim, não pressionou. Apenas resolveu mudar de assunto, e agradeci em silêncio.
— Sabe cozinhar?
— Sim.
— Dirigir?
— Sim, mas não tenho carro.
— Não precisa. Temos motorista.
O temos soou estranho. Porque ele parecia existir sozinho dentro daquele império.
— E quanto aos limites? — disse, inclinando-se para frente, as mãos unidas sobre a mesa. — Você percebeu que Noah não é uma criança fácil de lidar.
— Com todo respeito senhor, acredito que o problema do seu filho é porque ele teve que lidar com uma dor muito grande para alguém tão pequeno.
Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. Talvez porque no fundo, assim como Noah, não eu também estivesse lutando contra meus próprios abismos.
Os olhos dele voltaram a me atravessar. Mas agora não me analisaram, eles tentavam ler o que eu escondia. Meu corpo estremeceu levemente sob aquele olhar.
— O salário será alto. Vai ter direito a um seguro saúde e ficará hospedada na propriedade. Terá um quarto, banheiro e acesso às áreas comuns. Suas funções começam às seis da manhã e terminam quando Noah dormir.
Escutava tudo tentando absorver cada detalhe.



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