Juliana Bezerra
Eu mal tinha dado cinco passos para fora do prédio quando minhas pernas começaram a tremer. Não era medo de voltar atrás… era medo de não conseguir chegar até o fim.
Mas eu respirei fundo, segurei firme a alça da mochila e andei rápido até a esquina antes de finalmente pegar o celular.
Meus dedos estavam gelados.
Toquei no nome da Karina e levei o aparelho ao ouvido.
Ela atendeu tão rápido que parecia ter ficado a noite inteira olhando para o telefone.
— Ju? Pelo amor de Deus, fala comigo!
Minha voz saiu trêmula, mas cheia de um alívio que eu ainda nem acreditava.
— Kari… eu consegui. Peguei todos os documentos, o passaporte, a passagem… eu tô indo pro aeroporto agora. O André demorou pra dormir… mas deu certo.
Ela soltou um suspiro tão forte que quase pude sentir daqui.
— Graças a Deus! Minha amiga, eu tava com o coração na mão. Você tá bem? Ele não viu nada?
— Não. olhei para trás, só para ter certeza. — Ele apagou de vez. Bêbado. Roncando. Eu saí devagar… acho que ele nem vai notar até amanhã.
— Ju, escuta. Agora é você e o mundo. Não olha pra trás, tá? Eu tô aqui. Quando você pousar, eu te espero no aeroporto. A gente vai resolver tudo. Eu prometo.
Sorri pela primeira vez naquele dia… talvez pela primeira vez em meses.
— Eu confio em você, Kari. Se não fosse você, eu… minha voz falhou — eu ainda estaria lá dentro.
— Nunca mais. ela respondeu firme, como se decretasse um novo destino. — Agora você vem pra cá e vai recomeçar. E eu vou estar do seu lado pra tudo. Você é forte, Juliana. Só precisava de uma mão pra sair.
Olhei para o céu escuro, cheio de estrelas escondidas pela luz da cidade.
Era estranho. Ao mesmo tempo que parecia um fim, também era um começo.
— Eu tô indo, amiga. De verdade.
Uma parte de mim ainda não acredita que eu tô fazendo isso.
— Tá fazendo sim. E vai dar tudo certo. Me manda mensagem quando chegar no aeroporto. Não some. Você não tá sozinha, ouviu?
— Ouvi…
Eu estava indo embora.
Eu estava viva.
E eu estava, finalmente… livre.
O caminho até o aeroporto parecia um sonho estranho. Eu estava dentro do ônibus, abraçando minha mochila contra o peito como se ela pudesse me proteger do mundo. O interior do Rio de Janeiro ficava cada vez mais distante pela janela, junto com tudo que eu queria esquecer.
Meu voo sairia do Aeroporto Internacional do Galeão. Karina havia comprado a passagem com apenas uma escala em Lisboa, o que deixava a viagem ainda mais longa… mas também mais segura. Eu estaria fora do Brasil antes que André percebesse.
Foram 2 horas de estrada até o Rio.
E, durante todo o caminho, eu olhava para trás com medo de ver o rosto dele no vidro do ônibus. Mas ele não apareceu.
Nem poderia. Ele ainda devia estar desmaiado no sofá.
Quando o ônibus parou no terminal, a respiração me falhou por um instante. O Galeão era enorme, cheio de luzes, de vozes, de gente apressada puxando malas.
Eu era só uma mulher com um olho roxo, fugindo da própria vida.
Fiz o check-in com as mãos trêmulas. A funcionária viu meu rosto marcado, mas não disse nada. Apenas sorriu de um jeito que me fez sentir vista — e acolhida.
Depois da fila da imigração, sentei perto do portão de embarque.

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