Juliana Bezerra
Karina pegou minha mala como se fosse obrigação dela me carregar dali pra frente.
— Vamos pra casa. Você deve estar exausta. O voo foi tranquilo?
— Foram quase doze horas de viagem, fora a escala em São Paulo... eu tô morta. suspirei. — E ainda enjoei umas três vezes.
Ela riu, balançando a cabeça.
— Você sempre passando mal quando fica nervosa. Mas agora acabou. Bem-vinda a Londres, Ju.
Saímos do aeroporto e o céu estava nublado, típico. O cheiro do frio pareceu atravessar meu casaco simples. Entramos no carro que ela tinha, e enquanto dirigia, ela começou a apontar tudo pela janela.
— Eu moro em Greenwich, você vai amar. É tranquilo, seguro, cheio de árvores, parques, gente simpática... tem uma vista perfeita do Tâmisa. Ela sorriu. — E tem a minha casa, que agora também é sua.
Meu peito aqueceu.
— Karina... eu não quero te dar trabalho.
— Cala a boca. Ela sorriu de canto. — Eu esperei anos pra você sair daquele inferno. Agora deixa eu cuidar de você um pouco.
Fiquei em silêncio, olhando a cidade cinzenta passando pela janela. As ruas eram diferentes, os prédios tinham uma arquitetura que parecia de filme, os carros vinham do lado errado e eu percebi o óbvio:
— Eu realmente não sei falar inglês, Karina...
— E eu já te disse: você vai aprender. Com calma, no seu tempo. Ela colocou a mão no meu ombro. — Primeiro, você vai descansar. Depois, vamos correr atrás do seu novo começo.
Fechei os olhos por um segundo, sentindo finalmente a liberdade que eu tanto sonhei. Era assustadora, mas também linda.
Eu estava em outro país. Começando do zero. Com uma mala, um passaporte, e a esperança de que dessa vez… minha vida fosse só minha.
Quando viramos na rua de Greenwich onde Karina morava, senti meu corpo enfim relaxar. As casas tinham fachadas charmosas, pintadas de cores suaves, com jardins pequenos e cuidadosamente arrumados. Nada extravagante — bonito na medida certa. A cara dela.
Ela estacionou em frente a uma casinha geminada, com portas brancas e janelas grandes.
— Chegamos, Ju. É simples, mas é nosso cantinho, disse ela, abrindo o portãozinho de madeira.
Entrei atrás dela e, assim que coloquei os pés na sala, meu queixo quase caiu.
O lugar era pequeno, sim. Mas tão aconchegante que parecia me abraçar.
Um sofá cinza claro, fofo e limpo. Uma estante com livros organizados por cor típico da Karina — e uma TV grande presa na parede. No canto, uma planta enorme com folhas brilhantes que dava vida ao ambiente.
— Meu Deus, Karina… que casa linda.
— Eu tentei deixar o mais acolhedor possível ela respondeu com orgulho, passando a mão no sofá. — E arrumei seu quarto ontem. Vem ver.
Fui seguindo-a por um corredor estreito. À esquerda, o quarto dela. À direita, o meu.
Quando ela abriu a porta, senti um arrepio.
Era pequeno, como ela havia dito, mas tão confortável que me deu vontade de chorar de novo. Um colchão bom, com roupa de cama cheirosa. Uma mesinha de cabeceira e uma luminária delicada. Uma cômoda branca onde eu poderia guardar minhas roupas. E uma janelinha que dava para o quintal.
— Aqui é seu, amiga. Pelo tempo que você quiser.
— Karina… eu não sei nem como te agradecer.
Ela me olhou com aquela expressão protetora que sempre teve.
— Agradece ficando viva. Deu de ombros. — E recomeçando. É só isso que eu quero.
Coloquei minha mala no canto e respirei fundo, tentando absorver tudo aquilo. A paz. O silêncio. O cheiro de limpeza. A sensação de segurança que eu não lembrava mais como era.



VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Uma babá estrangeira para a filha do bilionário