Narrado por Lara
Eu estava sentada à beira da cama, escovando o cabelo com calma, quando a porta se abriu devagar. A empregada me olhou com aquele respeito mudo que todos ali tinham aprendido a ter comigo. Mas, dessa vez, havia um brilho no olhar dela. Algo diferente.
— Senhora, Layla gostaria de vê-la na sala.
Franzi o cenho.
— Agora?
— Sim. Disse que é importante.
Deixei a escova sobre a penteadeira e desci com passos calmos, como se meu corpo já soubesse que havia algo prestes a romper a rotina sufocante daquela casa. Quando cheguei à sala, encontrei Layla de pé, elegante como sempre, com aquele sorriso sereno e sincero que fazia minha guarda baixar mesmo sem perceber.
— Bom dia, Lara — ela disse.
— Bom dia, Layla. Aconteceu alguma coisa?
Ela se aproximou e segurou minhas mãos.
— Aconteceu sim. Você vai sair comigo hoje.
Fiquei imóvel por alguns segundos, sem conseguir processar a informação. Sair? Eu?
— Como assim... sair?
— Um passeio. Um café, talvez uma livraria. Só nós duas. Com seguranças, claro. Mas você não vai precisar usar véu. Não vai precisar manter as costas eretas como se estivesse em alerta. Vai ser só uma mulher... comigo.
Minha garganta secou.
— O Khaled autorizou?
— Foi difícil, mas sim. Ele disse que confia em mim. E que confia em você.
Não sei exatamente o que me emocionou mais: o convite ou o fato de ele estar, aos poucos, deixando o controle escorregar das mãos por mim. Não por medo de me perder... mas por respeito à minha liberdade.
— Eu... eu não sei o que dizer.
— Diga que vai se arrumar. Quero ver você sorrir hoje.
Abracei Layla sem pensar. E naquele abraço, havia algo que há muito tempo não sentia: gratidão.
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Voltei ao quarto e fui direto ao closet. Pela primeira vez em muito tempo, me permiti escolher uma roupa por prazer e não por estratégia. Escolhi um vestido leve, bege claro, de tecido fino e delicado. Combinava com o dia ensolarado e com o que eu queria carregar: leveza.
Soltei os cabelos, passei um perfume suave e optei por uma maquiagem quase imperceptível. Não queria parecer forçada. Queria apenas me sentir… eu.
Quando desci as escadas, Khaled estava parado junto à porta, observando cada movimento dos seguranças que organizavam os carros. Ele virou o rosto e me encarou. O olhar dele percorreu meu corpo com uma lentidão calculada. Mas não havia lascívia. Havia orgulho.
— Está linda — ele disse, com a voz baixa.
— Obrigada — respondi, apertando o pulso. — Layla está pronta?
— Já está no carro. Eu só quis... ver você antes de sair.
Assenti, e por um segundo achei que ele fosse me impedir. Mas ele apenas colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
— Qualquer coisa, qualquer mudança... me liga. Ou apenas pense forte em mim. Eu vou saber.
— Não sei. Talvez o tempo. Talvez o bebê. Talvez… Khaled.
Ela sorriu, mas não respondeu. Apenas segurou minha mão sobre a mesa.
— Não se culpe por ser feliz. Mesmo em meio à guerra, ainda é possível encontrar paz.
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Depois da confeitaria, fomos a uma loja de roupas. Experimentei vestidos, gargalhei no provador, tirei fotos com Layla. Compramos lenços, brincos, até um pequeno vestido para bebê. Meus olhos encheram d’água ao segurar aquele pedaço de pano minúsculo.
— Você está pronta pra isso? — ela perguntou baixinho.
— Não — respondi com sinceridade. — Mas quero estar.
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Voltamos para casa no fim da tarde. Quando entrei no portão, vi Khaled na varanda. De braços cruzados, olhar atento. Os seguranças ao redor relaxaram ao me ver sorrindo.
Khaled veio até mim, e pela primeira vez em muito tempo, eu o abracei sem medo.
— Foi bom? — ele perguntou.
— Foi perfeito.
— E você está bem?
— Estou viva, Khaled. Pela primeira vez em muito tempo… viva de verdade.
Ele me beijou na testa de novo. E eu deixei.

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