Narrado por Alberto
Khaled não falou. Ele despejou a bomba com a frieza de quem já matou com as próprias mãos. Estendeu o pacote ensanguentado em cima da mesa como quem oferece um presente macabro.
Dentro, o boneco.
O bilhete.
A prova.
“Jajá vai ser o seu, irmãzinha.
Com amor,
Natália.”
A letra da minha filha. Minha filha. Aquela que eu criei, protegi, eduquei... ou pelo menos tentei. Porque agora, olhando aquilo, eu não via mais a Natália que eu conhecia. Via uma mulher mergulhada num ódio cego, sujo, desesperado.
Bianca chorava em silêncio. O rosto pálido, os olhos tremendo.
— Isso é real? — ela sussurrou.
Khaled apenas assentiu, encarando o boneco como se fosse a própria sentença.
— E você quer que a gente faça o quê? — perguntei, com a voz grave. — Mande um buquê de flores pra ela?
— Eu quero que você faça o que devia ter feito desde o começo. — ele respondeu. — Eu quero que você pare a sua filha. Antes que ela morra.
— Ela não faria isso… não desse jeito.
— Então explica isso aqui, Almeida. — ele rebateu, jogando o bilhete em minha direção. — Explica como a sua filha virou brinquedo na mão de Hamzah e está oferecendo o próprio corpo em troca de alianças. Você sabe o que isso significa no nosso mundo?
— Eu sei muito bem o que significa. — murmurei, fechando o punho. — Eu só não acredito que ela chegou a esse ponto.
Bianca respirou fundo, tentando manter a dignidade.
— Isso é culpa sua, Khaled. Você destruiu nossa vida, vendeu a gente como gado, jogou a Natália no colo de um homem perigoso… e agora quer que a gente resolva o monstro que você mesmo criou?
Ele soltou uma risada seca.
— Não joguei vocês no colo de ninguém. Vocês foram por vontade própria. Não respeitaram Lara, não entenderam que mexer com ela era mexer comigo. Agora tá aí o preço. E se você não resolver essa porra, eu vou resolver.
Foi nesse momento que ele deslizou um envelope sobre a mesa. Dentro, o endereço.
Hamzah. O nome gravado em dourado na frente.
— Ela tá com ele — disse Khaled. — Num palacete escondido entre as dunas, onde homens fazem acordos por baixo de túnicas e sangue escorre mais fácil que água.
— E você quer que eu vá até lá… fazer o quê?
— Eu quero que você tire a sua filha de lá. Porque se ela continuar se prostituindo atrás de vingança, a próxima cabeça vai ser a dela. E eu não vou perder tempo mandando bilhete.
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O sol de Dubai parecia ainda mais cruel naquela manhã.
O carro cortava as estradas com a urgência de quem sabia que algo estava prestes a explodir.
— Ele vai deixar a gente entrar? — Bianca perguntou, olhando pela janela, com os cabelos presos num coque elegante.
— Não faço ideia. Mas se não deixar… a gente dá um jeito.
— Você acha que ela ainda tem salvação, pai?
Não respondi. Porque, no fundo, eu não sabia.
Chegamos ao palacete de Hamzah pouco antes do meio-dia. O portão dourado se abriu lentamente após anunciarmos nossos nomes, mas os seguranças deixaram claro que estávamos sendo observados.
Fomos conduzidos até o salão principal, onde Hamzah nos aguardava. Elegante, frio, entediado. Um homem acostumado a mandar, não a ouvir.
— Senhor Almeida — ele disse, com um sorriso leve. — Que surpresa inesperada. A que devo a honra?
— Quero ver minha filha. Agora.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Sua filha está… descansando. E por que tanta urgência? Não me lembro de ter autorizado visitas familiares.
— Porque se você não deixar, Hamzah, pode apostar que a próxima visita não vai ser tão cortês.
Hamzah riu. Um riso cheio de veneno e desprezo.
— Ameaças não combinam com você. Você é um homem de negócios. Como eu.
Foi então que os olhos dele pousaram em Bianca.

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