Narrado por Bianca
O cheiro era a primeira coisa que batia.
Podre. Enjoativo. Um misto de mofo, suor, metal oxidado e medo. O tipo de cheiro que se entranha na pele, que gruda no nariz e se recusa a sair mesmo quando você fecha os olhos.
Acordei com esse cheiro invadindo minhas narinas, com a sensação de que tinha areia nos pulmões. Minha cabeça latejava. O estômago doía como se estivesse sendo torcido. E quando tentei me mexer, senti a corda bruta presa ao meu pulso.
Foi só então que percebi: aquilo não era um sonho.
Estávamos presas.
Presas de verdade.
A luz da cela era fraca, amarela, pendurada por fios que balançavam levemente. As paredes eram cinzas, com rachaduras e manchas escuras. O chão de concreto estava úmido em alguns pontos. Não havia cama, nem janela. Só uma privada encardida no canto. Sem descarga. Sem dignidade.
Me arrastei como pude e olhei para o outro lado.
Natália estava acordada, sentada de costas contra a parede, com os olhos fixos em algum ponto imaginário. A Natália que eu conhecia não estava ali. Ela parecia uma concha, um corpo vazio. E quando nossos olhares se cruzaram, pela primeira vez, eu vi medo real nos olhos dela. Não raiva. Não orgulho ferido. Medo.
— Nati... — minha voz saiu fraca, rachada. — Onde... onde a gente tá?
Ela demorou a responder.
— Eu não sei.
Tentamos lembrar o que aconteceu. Mas tudo era nebuloso. O jantar, a caminhada. Depois… os homens, o pano, o desespero. E agora... aquilo.
O cativeiro.
Ficamos em silêncio por horas. Ou dias. O tempo ali dentro não existia. Só a angústia. A sede. O frio que vinha das paredes e da alma. Em algum momento, ouvi um som. Um portão se abrindo. Vozes lá fora. Idiomas que não entendi.
Então, a porta de ferro da cela se abriu.
Três homens entraram. Um deles, o velho de barba branca e expressão cortante. Os outros dois pareciam soldados: duros, impassíveis. Um deles trazia uma caixa nas mãos.
O velho se aproximou.
— Vocês devem estar se perguntando onde estão. — disse com um sorriso estranho. — Estão no meio do deserto. Um centro de “reeducação”.
Natália tentou se levantar. Cambaleou. Caiu.
— Reeducação pra quê?! — eu gritei, desesperada.



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