Narrado por Lara
A porta do quarto se fechou devagar atrás dele. O silêncio que ficou ecoou mais alto do que qualquer discussão.
Eu continuei sentada na cama, paralisada. Estava com a pele arrepiada, o estômago embrulhado, e um nó preso na garganta que me impedia de respirar direito. Por alguns minutos, apenas encarei o vazio — a colcha macia, o tapete perfeito, a decoração meticulosamente elegante. Tudo ao meu redor era bonito demais.
E mesmo assim, me sentia como se estivesse cercada por muros.
“Proteção.” Era isso que ele dizia. Que tudo o que fazia era para me proteger.
Mas desde quando proteção se parecia tanto com prisão?
Levantei devagar. Minhas pernas estavam fracas, como se eu tivesse corrido uma maratona. Caminhei até o banheiro sem acender a luz. Sentei no chão gelado, de frente pro espelho do armário, e encarei minha própria silhueta na penumbra.
Não me reconhecia mais.
Antes, eu era a filha esquecida. A garota que lia escondida no quarto. Que sonhava com uma família normal. Que fantasiava uma mãe que não conhecia e desejava um pai que nunca existiu.
Hoje… era esposa de um homem poderoso. Tão rico quanto perigoso. Um homem que dizia me amar, mas também era capaz de apagar vidas como quem fecha uma janela.
E agora, minhas irmãs…
Elas sumiram.
E ele não me contou até eu perguntar.
Como posso viver com isso?
Enterrei o rosto entre os joelhos e deixei o choro vir. Um soluço preso que parecia doer nos ossos. Não era só tristeza. Era uma mistura de culpa, vergonha, medo e dúvida.
O pior tipo de dor é aquele que não tem nome.
Minha cabeça girava.
Será que elas mereciam?
Sim. Uma parte de mim dizia que sim. Elas me desprezaram. Riram da minha dor. Usaram minha história como moeda. Planejaram me destruir.
Mas... eram sangue.
E eu cresci querendo pertencer àquela família.
Eu queria ser amada por elas.
Queria um “você tá linda” da Natália.
Queria um “vem assistir filme comigo” da Bianca.
Mas o que eu recebi foi rejeição. Sempre.
Mesmo assim... desaparecer?
Isso ultrapassa tudo.
Levantei e fui até o closet. Vesti uma camiseta larga de Khaled. Ela ainda tinha o cheiro dele. Misturado com perfume amadeirado e aquele fundo de fúria silenciosa que ele carrega até quando está calado.
Deitei na cama e abracei o travesseiro com força. Não sei quanto tempo passou. Talvez uma hora. Talvez três.
Em algum momento, cochilei.
Mas não descansei.
Sonhei com vozes. Com minha mãe, que eu nunca conheci. Sonhei que ela me chamava de “pequena”, que acariciava meu cabelo e dizia que eu era forte. Mas quando olhei pra ela no sonho, o rosto dela era o de Khaled. E eu acordei gritando.
Tremendo.
Sozinha.
Me levantei de novo. Andei pela casa em silêncio. Pela primeira vez desde que cheguei ali, percebi que não havia espelhos no andar de baixo. Apenas nas suítes.
Talvez Khaled soubesse que certos reflexos não são seguros.



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