Narrado por Lara
A bandeja veio antes do som dos passos.
Eu estava sentada na cama, com as pernas cruzadas e o robe amarrado sobre a camisola. Tinha acendido apenas a luminária ao lado da cama, tentando ignorar os pensamentos que rodavam minha cabeça como um furacão silencioso.
Então ouvi o clique suave da maçaneta.
Olhei para a porta.
Era ele.
Khaled entrou com a bandeja nas mãos, vestido com uma camiseta preta de algodão e uma calça de moletom escura.
Sem o peso do terno.
Sem o peso do mundo.
— O Rafiq já foi embora. — disse ele, sem a arrogância de sempre. — E eu achei que seria melhor eu mesmo trazer isso pra você.
Meu coração bateu mais rápido, mas mantive o rosto sereno.
Ele se aproximou com passos calmos, colocou a bandeja sobre a mesinha ao lado da cama.
Havia chá de camomila, fatias de pão sírio, damascos recheados e uma pequena tigela com creme de iogurte e mel.
— Está bonito. — murmurei.
— Você merece ser bem cuidada.
Ele ficou de pé, olhando para mim como se buscasse uma brecha no meu escudo.
— Tá tudo bem? — perguntou, com os olhos mergulhados nos meus.
Assenti, mas algo na minha expressão fez ele se aproximar um pouco mais.
Sentou-se ao meu lado com cuidado, como se eu fosse feita de vidro.
Passou a mão no meu rosto, e por um segundo eu quis recuar.
Mas não recuei.
Seus dedos deslizaram com carinho até meu pescoço, e depois voltaram à minha bochecha.
— Você parece distante.
— Só estou cansada. — menti. — É só isso.
Ele me observou em silêncio por alguns segundos.
Então falou baixo, quase como se estivesse se confessando:
— Posso dormir aqui hoje?
Arregalei um pouco os olhos.
Meu corpo inteiro ficou alerta.
— Por quê?
— Porque eu só quero… estar perto de você. — ele disse, tão baixo que parecia medo. — De você e do nosso filho. Não vou te tocar, eu prometo. Eu só… eu preciso sentir que você ainda está comigo.
Fiquei encarando ele por alguns segundos.
E foi ali, naquela troca silenciosa, que percebi:
Khaled não era um homem acostumado a pedir.


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