Foi naquele momento que uma mão grande e quentinha pegou na dela.
Margarida quase pulou do susto, e quando se virou num reflexo, viu que Vicente tinha aparecido do nada e já estava ali do ladinho dela.
— Por que você está gelada de novo? — Ele perguntou, com aquela voz macia, tentando acalmar o coração disparado dela.
Tinha recebido um toque do segurança dizendo que a situação de Margarida estava estranha, então largou tudo, até uma reunião importante na empresa para correr até ali.
Assim que chegou na butique, Vicente não entrou de cara. Ficou do lado de fora um tempinho, só observando ela.
Como já imaginava, Margarida estava encolhidinha num cantinho, com aquele olhar perdido no vazio, o rostinho lindo dela travado que nem estátua, como se alguma coisa muito sombria tivesse sugado toda a vida de dentro dela.
Lembrando do que o segurança tinha contado, Vicente puxou a Margarida para o colo dele e perguntou:
— Marga, esse mau-humor súbito aí é por causa daquele velho que você esbarrou lá fora?
— É, não consigo tirar ele da cabeça. — Margarida não estranhou nada, Vicente já saber de tudo assim que chegou. Pelo contrário, se aconchegando no colo dele, ela parecia ter achado finalmente um porto seguro para desabafar. — Vicente, o que vou falar vai soar meio doido, mas acho que já vi aquele cara antes, na época do acidente do meu pai.
Mesmo ela tendo só sete aninhos na época, só uma criancinha que todo mundo achava que não ia lembrar de nada.
Mas a verdade é que Margarida lembrava de cada detalhe.

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