— Augusto, o que exatamente você está fazendo? — Perguntou Margarida.
Ao ouvir aquele som estranho vindo do quarto, ela parou de imediato, como se seus pés tivessem enraizado no piso. Já estava prestes a se afastar, mas percebeu que a porta não estava completamente fechada. Havia uma pequena fresta, estreita, porém suficiente para despertar sua curiosidade.
Deu dois passos silenciosos em direção à abertura, inclinou-se um pouco. Assim que o olhar atravessou a brecha, sentiu o corpo inteiro se contrair. Os olhos se arregalaram e um frio lhe subiu pela espinha.
O que encontrou ali não correspondia em nada ao que havia imaginado. Não havia toque íntimo, nem qualquer cena que pudesse remeter à devassidão. O que se revelava diante dela eram marcas... incontáveis marcas.
O corpo alto e esguio de Augusto estava tomado por cicatrizes que pareciam carregadas de histórias dolorosas. A pele, que um dia fora lisa e impecável, trazia agora um mosaico irregular de cortes, queimaduras e marcas de chicote, uma rede cruel que o envolvia de cima a baixo. Algumas cicatrizes aparentavam ter anos, já gastas e quase se confundindo com a própria pele. Outras, porém, ainda denunciavam feridas recentes. Entre elas, destacava-se uma profunda no ombro, mal fechada e visivelmente inflamada, que ele tentava tratar sozinho.
Era dela que vinham os gemidos abafados que Margarida ouvira, gemidos que, num primeiro momento, a fizeram entender tudo de forma equivocada.
Agora, a verdade estava diante dela, nua e crua. Era infinitamente mais cruel do que qualquer suposição que pudesse ter feito.
Naquele instante, Augusto ergueu o rosto e a viu parada na porta. O encontro dos olhares provocou um aperto no peito de Margarida. Ela mordeu o lábio, hesitou apenas por um segundo e, então, empurrou a porta, entrando decidida.
— Como você ficou assim? Foi o Carlos quem fez isso? — A pergunta saiu carregada de incredulidade, embora, no fundo, soubesse que essa era a explicação mais provável.
Quem mais teria poder, e crueldade suficiente, para destruir dessa forma o herdeiro legítimo do Grupo Carvalho?

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