Na verdade, Vicente já estava calejado demais para se abalar tão facilmente. Depois de tudo pelo que passou, aprendeu a ignorar comentários maldosos e ataques, por isso, quando Leonor despejou todo aquele ódio, ele manteve a calma, como se seu coração fosse completamente à prova de balas.
Só que tudo mudou no instante em que Margarida, corajosa, se posicionou à frente dele e deu o tapa em Leonor. Estranhamente, naquele ato tão cheio de força, Vicente sentiu uma onda inesperada de ternura. Havia ali um cuidado e um carinho silencioso. Ficou claro que Margarida se importava com ele de verdade, talvez até sentisse pena dele, mas, para Vicente, qualquer gesto de proteção já bastava para aquecer o peito opresso de tantas mágoas.
Ele encarou Margarida, os olhos cheios de emoção contida, e, em voz baixa, disse:
— Não me importo com o que Leonor falou, mas preciso admitir que fiquei um pouco balançado. Posso te abraçar, Marga?
— Claro que pode! — Respondeu Margarida, sem hesitar nem um instante, aproximando-se com todo aquele jeito desengonçado de quem só queria consolar um amigo.
Só que, dessa vez, Vicente foi mais rápido. Em vez de apenas um abraço tímido, ele a puxou de vez para os seus braços e, inclinando-se, envolveu Margarida com intensidade, como se não quisesse deixá-la escapar nunca mais.
O calor das mãos de Vicente, firmes ao redor da cintura dela, fazia Margarida quase perder o chão. Por um momento, parecia que o mundo tinha ficado em silêncio, nem as estrelas ousavam piscar. Ela só sentia a respiração quente de Vicente em seu pescoço, o coração acelerado, e um sentimento inesperado roubando o ar dos pulmões.
Mesmo sem jeito, Margarida ficou imóvel, sem saber aonde pôr as mãos, até arriscar sussurrar, com uma voz toda embaraçada:
— Sr. Vicente, pode... pode ficar quanto tempo quiser assim.
Ela tentou soar natural, mas nem percebeu o quão vermelho estava seu próprio rosto.
— Marga, seu rosto está pegando fogo. — Vicente sorriu de canto, e, embora desse vontade de apertá-la ainda mais, se controlou, pois estava com medo de ultrapassar algum limite, talvez de ser invasivo. Com a voz rouca de emoção, murmurou. — Está sentindo calor? Ou esse vestido aí não ajuda?


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