— Desculpa, desculpa mesmo, eu juro que não foi de propósito! — Margarida se apressou em explicar.
Ela arregalou os olhos, e assim que percebeu o deslize de ter encostado os lábios nos de Vicente, recuou o mais rápido que pôde, soltando o pedido de desculpas quase sem ar.
O rosto dela ia além do vermelho, parecia que estava prestes a pegar fogo.
Já Vicente, que sempre demonstrava frieza em qualquer situação, ficou paralisado, o corpo inteiro estava tenso. Pela primeira vez, não conseguiu dizer nenhuma palavra. E até as orelhas, traidoras, entregavam a vergonha.
Afinal de contas, era o primeiro beijo dele.
Mesmo tendo passado por tanta coisa e visto o pior do mundo, só agora soube o que era o gosto suave e intenso de beijar alguém que se amava. O problema foi que tudo durou pouco, e Vicente sabia que, na sua inexperiência, não tinha feito bonito.
Mas, pensando bem, aquela era só a estreia. Haveria tempo de sobra para se aperfeiçoar.
Forçando-se a recuperar o controle, Vicente olhou fundo para Margarida e disse com uma voz rouca e baixa:
— Não precisa pedir desculpa. Isso não é algo que se desculpa.
— Precisa sim! Acho que merece desculpas, sim. — Margarida mal conseguiu concluir, sem coragem para encará-lo. — E... Sr. Vicente, quanto à mudança, deixa comigo, me viro sozinha.
— Tá bom. — Respondeu Vicente, sem insistir, só observando enquanto Margarida, assim que terminou a frase, girou nos calcanhares e saiu como um furacão. De vestido nas mãos, desapareceu no primeiro canto do corredor, sem dar chance para resposta.
Dessa vez, Vicente também não foi atrás. Afinal, depois daquela situação, qualquer segundo a mais junto só deixaria tudo ainda mais embaraçoso e ele também não tinha certeza de que conseguiria se controlar.
— Sr. Vicente...
Na mesma hora, lá do carro, veio o chamado cheio de constrangimento de Marcos, que tinha ficado de sobreaviso à espera dos dois, e acabou presenciando mais do que gostaria.


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