A chuva passou de garoa a aguaceiro constante, transformando as ruas em filetes rasos de água.
Os postes de luz dos dois lados lançavam um brilho enevoado sobre o asfalto encharcado, dando à cena uma serenidade etérea e um toque de poesia onírica.
Athena estava sentada na carruagem, inclinando a cabeça para olhar pela janela. Seus cílios longos tremulavam de leve, como asas de borboleta.
Um sorriso suave brincava em seus lábios enquanto ela se deixava envolver por completo pela beleza pitoresca do lado de fora.
Trina não resistiu à provocação: "Lady Athena, mesmo debaixo deste temporal, o lorde Ray insiste em encontrá-la para tomar um café. O que será tão urgente que ele precise dizer agora?"
Athena captou a insinuação de Trina e deu um leve toque em sua testa. "Você é terrível. O lorde Ray certamente tem algo importante para discutir comigo, por isso me convidou. Além do mais, é só um café. Não é tão complicado quanto você imagina."
Trina levou a mão à cabeça, fingindo dor, mas os olhos cintilavam de malícia. "Lady Athena, eu não estava exagerando. Quem está corando é você. Num dia chuvoso como este, o lorde Ray tão ansioso para convidá-la... não é óbvio o quanto ele se importa?"
Enquanto falava, Trina piscou para Athena, com ares de quem enxerga além das aparências.
Athena lançou-lhe um olhar de repreensão fingida. "Você está se tornando mais atrevida a cada minuto. Se eu não a colocar na linha, já já você vai ultrapassar os limites."
"Perdão, Lady Athena. Tenha piedade", Trina riu, alegre, sem um pingo de medo.
Ela sempre soube que Athena era firme nas palavras, mas macia no coração—voz dura, alma terna.
Athena balançou a cabeça de leve, completamente sem saber o que fazer com Trina.
A carruagem parou, e Trina saltou rapidamente para erguer um guarda-chuva para Athena.
Athena desceu da carruagem usando o pequeno banquinho. Mal havia recuperado o equilíbrio quando uma mão forte agarrou seu braço de súbito. O cheiro úmido da chuva e algo dolorosamente familiar a envolveram.
Como era de se esperar, Michael estava diante dela, encharcado, com a água escorrendo pela roupa.
Trina se moveu imediatamente para proteger Athena. "Lorde Osborne, solte a Lady Athena."
Embora a rua estivesse quase deserta, ainda havia a chance de alguém presenciar a cena.
Michael rosnou, frio: "Caiam fora."
Na mesma hora, dois guardas das sombras avançaram, cobriram a boca de Trina e a arrastaram à força para o lado.
Vendo isso, Athena se debateu contra o aperto dele e gritou: "Soltem a Trina."
"Fique quieta, Athena, e ela sai viva. Se lutar de novo, não garanto a segurança dela", advertiu Michael, gélido.
Os dois guardas encostaram as lâminas no pescoço de Trina, tornando a ameaça cristalina.
Athena fulminou Michael com os dentes cerrados, a voz tingida de gelo e fúria. "O que exatamente você pretende?"
A água escorria pelos cabelos de Michael enquanto ele encarava Athena de sobrancelhas franzidas, e a voz, inesperadamente, trazia um pedido contido. "Athena, você não pode se casar com Ray."
Ao ver o estado desgrenhado de Michael, um lampejo de surpresa cruzou o rosto de Athena. Mas, quase no mesmo instante, a surpresa deu lugar a um distanciamento gelado.
"Solte-me", cortou Athena. "Já cansei de ouvir os mesmos avisos vindos de você."
A paciência de Michael, por fim, se rompeu. Ele insistiu, desesperado: "Por que você não me escuta, Athena? Se entrar para a família McGee, vai caminhar direto para a ruína."
"Michael?" retrucou Athena, a paciência por um fio. "Se eu viver ou morrer, não diz respeito a você. E, para constar, eu sei muito bem o que estou fazendo."
Os lábios de Athena se curvaram num sorriso frio. "O que foi, lorde Osborne? Agora resolveu bancar o cavaleiro salvador por minha causa?"
"Ele vai pagar por tê-la ferido", rosnou Michael, estendendo a mão para o pulso de Athena—apenas para ser detido por uma voz baixa e perigosa: "Tire essas mãos imundas dela."
No fim da rua, uma carruagem ornamentada surgiu de repente. Ray caminhou até Athena sob o guarda-chuva, a postura reta como uma lâmina.
Normalmente cioso de limpeza, Ray nem pestanejou quando a lama respingou em suas vestes elegantes. Os guardas da casa o seguiam de perto.
O rosto de Ray estava glacial, e a pinta em forma de gota no canto do olho parecia ainda mais sinistramente marcante com sua fúria.
Ele parou a uns três metros de Athena e estendeu a mão. "Atheny, venha."
Athena deu um passo à frente, mas Michael permaneceu imóvel, cravando nela um olhar suplicante. "Não vá até ele", implorou.
Michael colocou Athena atrás de si, virou-se para encarar Ray e disparou: "Enquanto eu estiver aqui, você não a leva a lugar nenhum, nem por cima do meu cadáver."
A voz de Ray desceu a um rosnado perigoso: "Está procurando a morte, Michael?"
"Ray." Michael lançou-lhe um olhar gélido, a lâmina da espada encostada na garganta de Ray. "Não pense que seu título pode protegê-lo. Essa casa nobre em ruínas? Eu nem a considero ameaça."
Ray zombou: "Vamos, Michael. Machuque-me—se tiver coragem."
A chuva engrossou de vez, e o tamborilar das gotas parecia espelhar a tensão elétrica entre os dois.
Athena não teve escolha senão se voltar para Michael e dizer, fria: "Você não queria me vingar? Matthew está no poço seco do santuário abandonado a oeste da cidade."
A expressão de Michael vacilou por um momento, e Athena aproveitou a brecha para correr até o lado de Ray. Ao ver a escolha dela, o coração de Michael se partiu.

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