— Acredito que houve um equívoco aqui. Minha candidatura foi para babá e não para prostituta. O que convenhamos teria que pagar bem melhor para a mulher que se sujeitasse a deitar com um homem tão podre quanto o senhor.
Eu estava com ódio, sei que não deveria ter reagido daquela forma, mas as palavras de Daniel tinham tocado em uma parte minha que eu prezava para manter intacta.
Me virei sem pensar no aluguel atrasado, nem na fome que ainda marcava meu corpo. Ele não falaria comigo daquela forma!
Abri a porta de mogno esculpido com a força de quem puxa o próprio mundo de volta aos trilhos.
Os passos estavam firmes, mas meu pé machucado tentou me derrubar mais uma vez. E como eu havia feito há pouco com Daniel Savoia, simplesmente não me permiti cair.
Abaixei decidida, arranquei aqueles sapatos idiotas e continuei meu caminho. Já não importava!
No primeiro passo que dei fora do piso delicado da mansão, a meia fina desfiou e o rasgo que começou na sola do meu pé subiu até o joelho com a velocidade de um aviso.
Pare!
Talvez eu devesse ter parado, mas continuei caminhando, o queixo erguido, a postura tão perfeita que eu poderia estar em uma passarela.
Estava dando um basta na maldita mania que o mundo tinha de me esmagar.
Os seguranças em seus ternos impecáveis olhavam para mim como se enxergassem uma aberração, mas então, até eles se surpreenderam.
— Senhorita Bittencourt!
O chamado de Daniel foi baixo e eu escolhi ignorar, por que olhar para alguém que não me enxergava?
Então o ouvi novamente, dessa vez bem mais perto.
O grande líder da família Savoia apressou os passos para me alcançar. Contei aquilo como minha primeira vitória, achei que fosse receio de um processo por assédio, mas não foi medo o que encontrei em seus olhos quando me virei.
Foi como encarar um predador e ali, eu era a presa.
— Pois, não?
— Senhorita Bittencourt, por favor entre, precisamos conversar.
— Serena, meu sobrenome não indica nem poder, nem dinheiro, mas meu nome é algo que me orgulha, pois é limpo! Coisa que você não pode afirmar sobre o seu. Com licença!
Eu continuei andando até ser puxada pelo braço com tanta força que ainda hoje eu posso sentir os dedos dele marcando a minha pele.
Daniel rosnou a resposta, vários tons mais baixos do que o mundo ao nosso redor e ainda assim, tão claro quanto o sol sobre nossas cabeças.
— Não me desafie, garotinha. Você não tem como ganhar esse jogo, então aprenda a perder com elegância.
Sorri, não por ironia, como deve ter parecido, mas pela amarga constatação de que perder era a minha zona de conforto.
— Pois jogue sozinho, senhor Savoia. Minha única dor ao sair da sua casa é saber que uma garotinha tão linda quanto a sua filha tem um pai tão doente quanto você, com licença. A adolescente de roupas sujas aqui está indo embora.
Eu me virei soltando o ar que nem sabia que tinha prendido por tanto tempo e quando ergui a cabeça. Daniel já estava na minha frente com aqueles olhos frios e cheios de poder.
Minhas pernas falharam, qualquer mulher no meu lugar também teria vacilado. Eu quis pedir para que ele saísse da minha frente. Estava há um passo de desmoronar e então a voz dele soou ainda mais séria.


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