POV: LAUREN
Uma panqueca queimada, calda de chocolate em excesso e risadas contagiantes. Aquela manhã tinha algo especial, uma atmosfera leve e descontraída que era rara de se ver. Henry, normalmente tão rígido e sério, estava se esforçando de verdade para se conectar com Theo. E funcionava. De tempos em tempos, eu pegava Theodor lançando olhares fascinados ao tio, como se não acreditasse naquela nova dinâmica.
— Que tal pintarmos? — Sugeri, sorrindo de forma animada. A reação foi imediata: os dois me encararam com expressões desconfiadas, como se eu tivesse sugerido algo totalmente absurdo.
— Pintar? — Henry arqueou uma sobrancelha, passando a mão pelos cabelos de maneira despreocupada. — Não parece algo muito útil. — Ele observou, lançando um olhar rápido para Theo antes de suspirar. — Mas podemos tentar. O que acha, garotão?
— Sério? — Os olhos de Theo se iluminaram por um breve momento, mas logo a hesitação tomou conta. — Você não vai se incomodar com a sujeira?
— Sujeira faz parte do processo. — Henry respondeu, piscando para o sobrinho com um sorriso descontraído. — Na verdade, estou contando com ela.
Pouco tempo depois, estávamos todos no jardim, rodeados por tintas, pincéis e telas. Cada um tinha um espaço improvisado, e a brincadeira rapidamente virou uma competição de adivinhações. Theo estava claramente no controle, orientando as regras com a energia típica de uma criança animada.
— Vamos, tio Henry, não é difícil! — Theo exclamou, apontando para a tela com impaciência. — É só olhar direito!
Henry estava sentado de forma um tanto desajeitada na grama, o que só fazia sua figura parecer ainda mais imponente. Mesmo fora de seu ambiente usual, ele exalava uma presença marcante. A luz do sol iluminava seus cabelos dourados, destacando cada traço bem definido de seu rosto, mas seus olhos azuis estavam completamente confusos diante do desenho na tela.
— Um... guarda-chuva? — Ele arriscou, franzindo o cenho enquanto inclinava a cabeça, claramente sem entender o desenho de Theo.
— Não! — Theo bufou, cruzando os braços.
— Bem, talvez sua fada devesse ser minha tradutora oficial. — Henry lançou um olhar divertido na minha direção, com um sorriso malicioso curvando os lábios. — Sra. Becker, pode me ajudar antes que Theodor declare guerra?
— Você é terrível nessa brincadeira! — Comentei entre risos, mas logo limpei a garganta e endireitei a postura, tentando recuperar o tom profissional quando vi Henry arqueando uma sobrancelha com aquele ar de superioridade. — Me perdoe, Sr. Carter.
— Está bem espertinha hoje, Sra. Becker. — Ele respondeu com um meio sorriso, carregado de charme. — Então me diga, o que você acha que é este desenho?
Seu olhar desafiador fez meu coração acelerar, e quando percebi que havia descido os olhos para seus lábios, desviei rapidamente o rosto, rezando para que ele não tivesse notado.
— O desenho, Sra. Becker! — Ele insistiu com uma provocação sutil.
— É claramente uma árvore. — Respondi casualmente, tentando não demonstrar o nervosismo que sua presença sempre parecia causar.
— Isso, fada! — Theo gritou, saltando de alegria enquanto apontava para o desenho. — Viu, tio Henry? Como você não viu isso?
— É exatamente o que estou me perguntando. — Henry riu, sua risada baixa e rouca reverberando em meus ouvidos. Então, ele virou os olhos para mim, mantendo aquele tom intenso. — Como eu não vi isso antes.
As palavras dele tinham algo a mais, um significado que eu não queria explorar naquele momento. Senti um frio percorrer minha espinha e um nó se formar no estômago, mas me forcei a ignorar. Peguei as tintas novamente, tentando me concentrar, sentindo seu olhar sobre mim.
O toque insistente do celular quebrou o momento. Ele o pegou, soltando um suspiro longo ao ver quem estava ligando.

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