— Vá dormir, menina. Vou ficar aqui e me certificar que nada vai acontecer com você. — Peta se levantou e foi para a porta. — Descanse que o seu dia foi cheio.
Eu não respondi nada, apenas me deitei e me enfiei de baixo dos lençóis. Seria difícil dormir ali, meu corte tinha parado de doer, mas meus pensamentos não se calavam.
Revivi cada segundo do meu dia, desde que decidi sair da casa de vovó Blanca.
Me virei de um lado para o outro, eu não queria ficar relembrando aquelas coisas horríveis, isso só deixava meu humor ainda pior. Não era nada agradável ficar me lembrando do quanto me odiavam e me queriam morta, não só a mim, mas meu filho também.
Enfiei o lençol sobre a cabeça e comecei a cantarolar como minha mãe cantava. Em latim, hoje aposto que poderia ser até mesmo um feitiço, mas não me importei, aquilo sempre me acalmou e me ajudou a pegar no sono.
O cheiro de Quanah, impregnado na cama, invadiu minhas narinas. Não sei se aquilo ajudou a diminuir meu estado de estresse, mas não demorei a dormir.
Eu sentia meu corpo relaxado, os pássaros cantavam e eu podia até sentir o calor do sol aquecendo minha pele.
— Você precisa levantar e se preparar. — uma voz feminina soou me assustando, eu abri os olhos no mesmo instante.
Estava deitada na relva, no meio da floresta, a mesma floresta que eu tinha visto milhares de vezes nos meus pesadelos. E ali na minha frente estava ela, a mulher que sempre queimava na fogueira.
— Quem é você?
— Sou sua ancestral, Bridget! — não consegui segurar sua arfar de surpresa. — Você ainda tem muito o que aprender. Mas não temos muito tempo, ele está vindo atrás de você, precisa encontrar suas irmãs bruxas.
— Eu não tenho irmãs. E quem está vindo?
A mulher se aproximou de mim, os olhos claros tão parecidos com os meus e os da minha mãe, seus cabelos ruivos estavam enrolados em um coque no alto da cabeça.
Suas mãos enrugadas seguraram meus ombros com força.
— Escute com atenção! — a voz dela estava mais firme. — Suas irmãs Bruxas, uma para cada elemento, una todas antes que ele chegue!
— Eu... Eu não entendo. — gaguejei em confusão. — Ele quem?
— Ele já está aqui, a caçada logo começará! — assim que suas palavras deixaram sua boca, o ar a nossa volta mudou.
Então uma nuvem surgiu, levando embora todo o sol, os pássaros voaram para longe em bando.
— Não adianta, Bridget! — aquela voz horrenda, que eu já tinha escutado antes soou, eu só não conseguia me lembrar onde já a tinha escutado. — Sua bruxa velha e tola, vocês são fracas, continuam usando crianças.
Aquela mesma capa preta, com o rosto borrado, que vi na porta do meu quarto estava ali. Mas eu ainda não conseguia ver seu rosto, não tinha como saber quem era.
— Você não vai vencer dessa vez. Nós vamos derrotá-lo. — ela gritou e eu continuava ali, entre os dois, sem entender o que estava acontecendo. — Sabemos porque quer ela e ainda mais precisa de nós, para se alimentar.
— Eu já venci! — ele bradou e um vento gelado assolou a floresta, sacudindo as árvores e espalhando um frio que nunca havia sentido antes. — Venci quando decidiram usá-la contra mim, ela nem ao menos sabe algo sobre esse mundo, foi criada na ignorância dos humanos! Pode carregar o seu nome, mas está longe de ser como você!
O céu escureceu no mesmo instante e uma chuva torrencial começou a cair, meu corpo tremia com o frio da água e a força dos ventos.
Bridget gritou palavras em latim, mas nada parecia surtir efeito, era como se seus poderes não existissem. Ela era uma conjuradora do fogo como eu, mas nada acontecia, o fogo não surgia, seus olhos não ficaram brancos ou de nenhuma cor.
Mas ela continuou a repetir incessantemente as palavras: Origines tuas quaere, quaere qui sis!
O frio tomava meu corpo, mas eu insistia em querer desvendar a cara do homem que estava ali. Eu precisa descobrir quem ele era e o que fazia no meu quarto, mais importante que briga era essa entre eles.
Bridget, minha antepassada, fincou as unhas afiadas em meu ombro e falou ainda mais alto as palavras.
— Origines tuas quaere, quaere qui sis! — um trovão retumbou me assustando. — Origines tuas quaere, quaere qui sis!
Eu estremeci e senti sua mão me sacudir, uma, duas, três vezes, enquanto ela repetia as palavras.
Até que despertei com um sobressalto.
Peta estava do meu lado, segurando meus ombros e me encarando com o olhar assustado.
— Que diabos te deu, até que enfim despertou! — foi a primeira coisa que o ouvi dizer. — O que você viu?
Eu estava gelada, tremendo sem parar, meus dentes até batiam um no outro com a força que eu tremia.
— O que aconteceu? — perguntei e isso pareceu fazê-lo relaxar um pouco.

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