A ironia da situação não escapa à percepção aguçada de Dominic. Vivienne deliberadamente enfatiza sua necessidade financeira numa interpretação quase impecável de alguém que precisa de cada centavo. Um sorriso sutil brinca em seus lábios enquanto assume seu lugar atrás da mesa imponente.
— Pessoas de condições financeiras mais modestas também possuem educação. — Vivienne dispara, com irritação, detectando o julgamento velado em seu sorriso. — É extremamente presunçoso de sua parte presumir que apenas pessoas ricas sabem se portar adequadamente. — Acrescenta, consciente de que cada gesto seu apenas alimenta as suspeitas dele.
— Não tenho a menor dúvida disso, senhorita Bettendorf. — Dominic rebate, analisando o esforço meticuloso dela em convencê-lo. — Mas posso afirmar, com certeza, que se eu colocasse dez funcionárias naquela mesa, nenhuma demonstraria sua impecável etiqueta à mesa. — Completa, sabendo que pessoas alheias ao seu círculo social teriam dificuldades com a complexidade dos talheres, algo que ela executou com naturalidade desconcertante.
— Por favor, efetue meu pagamento para que eu possa me retirar. — Solicita, desejando encerrar um assunto para o qual não possui argumentos convincentes.
Um sorriso satisfeito surge nos lábios de Dominic. Além de sua postura impecável, alguém sem recursos consideráveis jamais conseguiria manter seu passado tão oculto, algo que ela executa com maestria, considerando que os melhores investigadores encontram dificuldades em descobrir qualquer informação sobre sua vida.
— Aqui está. — Responde, depositando as notas sobre a mesa, o valor correspondente a um dia de trabalho mais uma quantia generosa para transporte. — Tire o amanhã para descansar. Após a análise de seu teste de aptidão, receberá instruções sobre seu possível retorno.
— Com licença. — Declara, recolhendo o dinheiro e retirando-se do escritório, ansiosa para escapar daquele interrogatório. — Que droga, Vivienne! — Resmunga para si mesma, frustrada por sua incapacidade de mascarar seus modos que parecem brotar naturalmente em sua presença.
Enquanto caminha em direção ao elevador privativo, Vivienne solicita um carro pelo aplicativo. Falar sobre seu passado é um território que ela se recusa a explorar, pode até lidar com as suposições perspicazes de Dominic, mas não com o medo que a consome cada vez que as palavras do pai ecoam em sua mente.
Quando descobriu a gravidez e enfrentou a reação explosiva de Noah, pela primeira vez em mais de um ano, cogitou retornar para casa, agarrando-se às lembranças dos raros momentos felizes que viveu com a família. Contudo, a realidade não demorou a se impor. As últimas ligações com seus pais haviam sido marcadas por silêncios constrangedores e palavras frias, deixando claro que ela não era mais bem-vinda naquele lugar que um dia chamou de lar.
— Ele não tem como descobrir. — Murmura, como um mantra tranquilizador, oferecendo um sorriso educadamente vazio à recepcionista antes de deixar o luxuoso condomínio e mergulhar na segurança momentânea do carro que a aguarda.
Em seu escritório, Dominic permanece imerso em teorias sobre os motivos que levariam uma mulher evidentemente privilegiada a abraçar uma vida tão abaixo de sua posição natural. A situação o deixa particularmente apreensivo, sem conhecer a verdadeira natureza de seus segredos, como poderia protegê-la adequadamente?
— Não posso culpá-la pela desconfiança, mal nos conhecemos. — Admite para si, com um suspiro pesado, consciente do quão recente e complexa é a conexão entre eles. Seu instinto protetor, no entanto, fala mais alto que sua razão. Com determinação renovada, aciona seu telefone. — Finn, algum progresso nas investigações sobre a senhorita Bettendorf? — Questiona, assim que a chamada é atendida, sua voz traindo a urgência que sente em desvendar os mistérios que a cercam.
— Os relatórios ainda não chegaram, Dominic. — Finn responde, massageando as têmporas diante da impaciência característica do amigo. — Você precisa dar tempo aos investigadores.
— Vivi, estou me preparando para uma entrevista, vou ter que recusar. — Responde, com pesar. — Mas você não me parece bem. Aconteceu alguma coisa? — Questiona, captando as nuances preocupantes na voz da amiga.
— Não se preocupe, está tudo bem. — Responde, engolindo suas preocupações para não atrapalhar a amiga. — Boa sorte na entrevista, te amo, Jo. — Finaliza, encerrando a ligação antes que a amiga possa insistir e acabar se atrasando por sua causa.
Vivienne busca refúgio na televisão, sintonizando num canal de desenhos antigos que a transportam instantaneamente para sua infância. Suas mãos pousam instintivamente sobre a barriga numa carícia protetora, enquanto promete aos filhos uma vida repleta daquilo que sempre lhe foi negado, amor verdadeiro e incondicional.
Próximo ao horário do almoço, o toque estridente da campainha arranca-a bruscamente de suas reflexões. Ao abrir a porta, depara-se com o vazio inquietante do corredor, mas seu olhar é inevitavelmente atraído para uma caixa no chão, adornada com um laço elegantemente elaborado.
— Quem deixou isso aqui? — Questiona-se, em voz baixa, recolhendo a caixa com cautela. Leva-a até a cozinha, depositando-a sobre a mesa com um misto de curiosidade e apreensão.
Com movimentos hesitantes, desfaz o laço meticulosamente arranjado. Ao abrir a tampa, um grito de puro terror escapa de seus lábios. Recua num movimento desesperado, suas costas colidindo violentamente contra os armários da cozinha. Todo seu corpo treme incontrolavelmente, enquanto seus olhos permanecem fixos no conteúdo da caixa, sua mente processando a mensagem clara e aterrorizante.

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