Dominic dirige pelas ruas da cidade com uma calma controlada, embora seu ímpeto seja ignorar toda a civilidade e cruzar a cidade como uma tempestade. O trânsito, entretanto, parece deliberadamente desafiar sua urgência.
— Que demonstração patética para testar minha paciência. — Dominic murmura, com sarcasmo, golpeando o volante ao parar em um engarrafamento. — Droga! — Resmunga, seus dedos deslizando pela multimídia, enquanto busca rotas alternativas. — Uma obra-prima do planejamento viário. — Reclama, ao constatar que precisará desperdiçar trinta preciosos minutos para alcançar um desvio ridiculamente próximo. O toque do celular interrompe sua contemplação do caos urbano. — A que devo o desprazer? — Pergunta, com frieza calculada ao atender.
— Negociar. — Noah articula, precariamente, através da mandíbula imobilizada. — Uma visita fraternal seria apropriada?
— Negociar? — Repete, sua voz carregada de uma raiva contida que vibra em cada sílaba. — Permita-me declinar dessa proposta absurda, caro irmão. — Continua, o desprezo evidente em seu tom. Um calafrio febril percorre seu corpo, obrigando-o a ativar o aquecimento do carro, enquanto a irritação lateja em suas têmporas. — Além disso, sua atual condição vocal tornaria nossa conversa terrivelmente monótona.
— Precisamos falar sobre a Vivienne. — Dispara, com a certeza de quem já traçou um caminho. — Não irei abdicar dela, Dominic. Não importa que ela esteja grávida, ela me pertence.
— Noah, ela não é um objeto! — Explode, sua voz carregada de uma fúria que reverbera em cada sílaba. As palavras saem pesadas e furiosas, um aviso final, mais ameaçador do que qualquer gesto físico. — Você não tem direito sobre ela! Não importa o que pense ou diga, ela não é sua. E se você me tirar do sério, posso acabar te matando nessas condições. — Conclui, o tom ameaçador encobrindo um cansaço que ele prefere ignorar, encerrando a ligação com um toque impaciente. — Idiota. — Murmura para si, apertando o volante com força, consciente de que a conversa não passaria de mais uma briga vazia com o irmão, um ciclo irritante que parecia não ter fim.
Seus dedos tamborilam impacientes no volante, o ritmo irregular denunciando a tempestade que se forma dentro dele. Seu olhar recai sobre a caixa no banco ao lado, um símbolo cruel da perversidade calculada de Grant. A raiva o invade ao considerar a covardia hedionda de ameaçar uma mulher grávida e crianças inocentes, ainda por nascer.
Embora sempre soube da natureza impiedosa do avô, nunca imaginou que ele desceria a tais profundezas. Aquela caixa, com seu conteúdo macabro, era um manifesto silencioso de uma face que ele jamais pensou enfrentar, uma face que transformava cada lembrança de conflitos passados em meras preliminares para o horror que agora o assombrava.
— Te mato antes que você possa machucar minha família. — Vocifera, a voz grave e carregada de fúria, a ameaça proferida com uma convicção tão profunda que quase se torna palpável no ar.
Um sorriso amargo curva seus lábios perfeitamente desenhados, enquanto observa a fila interminável de carros à sua frente. A ironia da situação não o impede de encarar a possibilidade de arremessar o seu avô do último andar da Muller Capital Partners para proteger uma família que ele não planejou, mas que, inexplicavelmente, começa a preencher os vazios que anos de perdas cavaram em seu coração cuidadosamente protegido. O toque do celular interrompe suas reflexões calculadas.
— Preciso fazê-la falar. — Sussurra, as informações superficiais de Finn ecoando em sua mente.
O congestionamento finalmente cede, permitindo um fluxo que ameniza parcialmente sua urgência. Seus olhos percorrem impacientemente o relógio digital, enquanto mantêm a atenção no trânsito. Alcançando a rota alternativa, acelera com precisão, ignorando deliberadamente as normas. A cada sinal vermelho, sua buzina corta o ar como um aviso autoritário de sua passagem.
Num cruzamento, o sinal amarelo pisca como um desafio que ele aceita sem hesitar. O sinal muda para vermelho, mas seu carro continua sua trajetória, até que outro veículo surge velozmente, forçando-o a uma manobra brusca. O carro desliza violentamente, seus reflexos refinados lutando contra a física enquanto pisa no freio. Não é rápido o suficiente, seus olhos se fecham involuntariamente quando memórias antigas o invadem, precedendo por milésimos o impacto contra o poste e a colisão de sua testa contra o volante.
Dominic sente o mundo girar, enquanto algo quente e viscoso escorre por sua testa. Seus olhos, cada vez mais pesados, lutam para manter o foco, mas as pálpebras se tornam impossíveis de abrir, como se o peso de toda a dor estivesse esmagando seus sentidos.
O som de buzinas soa como um grito agudo, e as vozes alteradas se tornam um turbilhão de palavras incompreensíveis, misturadas com batidas frenéticas na janela. Vultos se acumulam ao redor do carro, sombras indistintas que não fazem sentido, enquanto o tempo parece desacelerar.

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