A família DelaVille, da ex-esposa do desgraçado, não se pronunciou sobre o caso. Do exterior, o advogado que os representava, afirmou em uma carta à imprensa, que se absteriam de comentar o caso, e qualquer afirmação sem provas contra a família seria vista como um ataque infundado aos DelaVille. Entretanto, o que chamava a atenção de todos é que estranhamente, Cintia DelaVille não veio buscar a filha, Mariane. Ela se negava a assumir os cuidados da menina, dizendo que tinha concedido a guarda total ao pai.
Mariane estava em um abrigo do juizado de menores, a babá que tomava conta da menina foi ouvida pela polícia e a acompanhou durante o tempo todo. Sem um responsável, nenhum exame físico ou psicológico foi realizado na criança. No entanto, a pequena estava desolada com a ausência do pai e chorava muito.
No material encontrado, não havia fotos ou vídeos de Mariane, e isso foi um alívio para todos. Mas a polícia ainda não tinha descartado a possibilidade de que o doutorzinho ainda poderia estar na fase de aliciamento, já que a menina era filha dele.
Enquanto todos se perguntam se ela ficaria bem, e porque a mãe não a assumia, logo essa manhã, houve mais uma notícia que chocou ainda mais a todos. Cintia nunca deu à luz a uma criança. E por esse motivo apresentou na justiça um recurso sigiloso que a abstinha de qualquer responsabilidade legal com a criança. Ela se recusava totalmente a se responsabilizar pela tutela de Mariane DelaVille.
Todos se perguntavam de quem Mariane era filha. Quem a gerou?
Seria outra vítima do vermezinho asqueroso?
Olavo abandonou o joguinho eletrônico dentro do bolso de seu casaco, e olhou para o pai.
- Por que a mamãe tem que vir a esse médico com frequência agora?
- Ela precisa fazer terapias, como você com o seu terapeuta.
- Mas eu faço porque vivi na rua. – ele disse, abaixando a cabeça. Sempre que se referia ao passado, Olavo evitava olhar nos olhos dos outros, era triste ver o esforço que ele fazia para esconder a existência de Astrid.
- A mamãe faz porque teve uma infância difícil, como você. Ela foi adotada, sabia disso?
- Ela me disse uma vez.
- Antes de ser adotada, ela foi abandonada pela própria mãe.
- Mas ela era praticamente um bebe. Como pode se lembrar do que aconteceu? Eu não me lembro de quando tinha um ano ou dois... – Olavo considerou as informações. – Como ela faz terapia por causa de coisas que aconteceram que ela nem se lembra?
- Mesmo que não se lembre, há situações que nos marcam para a vida toda. Nosso inconsciente guarda o que houve, criando um trauma que nem sabemos a origem. – Vitório pensou em Lucila, no que ela passou com o irmão. Ela se lembrava de tudo. – Às vezes nos lembramos, e às vezes não...
- Eu também queria não me lembrar... – Olavo concluiu num tom baixo, que fez o coração de Vitório doer. - ...de nada de antes de conhecer você e a mamãe.
- Novas lembranças felizes vão tomando o espaço dessas que você não quer. Com o tempo, elas ficaram tão pequenas, que você quase não se lembrará que estão aí.
- Só quero lembranças com vocês e com o bebê.
Vitório sorriu, e o abraçou despenteando seus cabelos. Ele também queria se desfazer daquelas malditas lembranças, mas no seu caso, era impossível.
A porta se abriu, e Lucila saiu com um sorriso terno que aqueceu seu coração. Olavo correu para ela, e a abraçou. Olhando para Vitório, ela murmurou em silêncio. “Eu amo vocês”.
Estava errado...
Talvez aquelas lembranças terríveis também fossem diminuindo como as de seu filho. O amor de Lucila era curador, era luz e esperança.

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