É claro que eu não tocaria em nada daquilo. Não apenas porque álcool fazia mal à gravidez, mas porque podia estar envenenado. Sentei-me, mas não peguei a colher, embora o ensopado parecesse e cheirasse realmente muito bem.
— Não vai comer? — O Rei dos Renegados perguntou, inclinando a cabeça.
Ele já tinha começado a atacar o próprio ensopado com um entusiasmo inesperado.
Recostei-me na cadeira e cruzei as pernas.
— Não.
Ele soltou uma risada baixa, depois se levantou e contornou a mesa. Observei enquanto pegava minha colher e apanhava uma porção do ensopado. Sustentou meu olhar sem vacilar e a levou à boca. Mastigou devagar, saboreando. Depois engoliu.
— Viu? — Pegou outra colherada e a estendeu para mim. — Não está envenenado.
A colher roçou meu lábio inferior. Recuei de repente, mas minha cabeça bateu no encosto alto da cadeira. O Rei dos Renegados apenas esperou, sorrindo para mim. Sorrindo como um pai talvez sorrisse ao alimentar uma criança pequena, ou talvez como um...
Não.
Afastei o pensamento. Ele não achava que poderíamos ser amantes, certo? Eu jamais permitiria. Arrancaria seu olho bom com as unhas antes de deixar isso acontecer.
Como se lesse meus pensamentos, ele suspirou e colocou a colher de lado.
— Como quiser.
Voltou ao próprio assento e encheu novamente sua taça de vinho.
— Suponho que devamos conversar, então, já que você não vai comer.
— Fale à vontade. — Respondi.
— Muito bem.
Ele tomou um gole de vinho.
— Sei que você não é do tipo que gosta de rodeios, então vou começar por isto: você foi adotada.
Pisquei. Depois ri.
— Você está cheio de merda.
— Você foi trocada ao nascer. — Ele continuou, girando o vinho dentro da taça. — Sua mãe adotiva... O bebê biológico dela morreu pouco depois do parto. Você foi encontrada por ela. Abandonada na floresta, ou assim parecia.

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