Ela abriu um sorriso carinhoso.
— Agora sente-se, filha. Vou providenciar algo para você comer. Não posso deixar uma moça linda como você com fome.
A palavra filha me pegou desprevenida. Meu coração doeu de leve ao lembrar da minha mãe. Será que ela estava bem? Será que aquele assassino a mandou mesmo para a casa da minha tia? Só de pensar que aquele desgraçado pudesse ter feito algum mal a ela, eu sentia vontade de matá-lo.
Afastei o pensamento antes que as lágrimas viessem.
— Eu não estou com muita fome, dona Helen… um lanche já está bom.
— Lanche não é comida de verdade, mas se é isso que prefere, vou fazer um lanche reforçado para você — ela murmurou, já abrindo a geladeira.
Sentei-me em uma cadeira à mesa enorme da cozinha enquanto ela se movia com agilidade. Pegou pão fresco, queijo, presunto, folhas verdes. Cortou tudo com cuidado, montando um sanduíche generoso. Depois espremiu laranjas na hora, o cheiro cítrico preenchendo o ar.
Ela colocou o prato diante de mim e o copo de suco ao lado.
— Espero que goste, menina.
Eu agradeci com um olhar sincero e dei a primeira mordida.
Estava delicioso.
O silêncio entre nós era confortável, mas minha mente não parava. A imagem de Ethan voltava como um filme que eu não conseguia desligar. O jeito que ele me olhava. A segurança fria na voz. A força nas mãos.
Eu precisava entender quem ele realmente era.
— Dona Helen… — comecei, tentando parecer casual.
— Como o senhor Ethan se tornou chefe da máfia?
— Matando o antigo chefe e assumindo o lugar dele.
A voz grave ecoou atrás de mim antes mesmo que eu pudesse reagir.
— Ou seja… matando o meu próprio pai.
O copo de suco quase escapou da minha mão. Meu coração disparou tão forte que eu tive certeza de que Helen conseguia ouvir. Virei o rosto devagar.
Ethan estava encostado no batente da porta da cozinha, impecável como sempre. O terno escuro parecia moldado ao corpo largo. A expressão? Impassível. Como se tivesse acabado de comentar sobre o clima.
Helen levou a mão ao peito.
— Ethan! — repreendeu, nervosa.
— Não se fala algo tão grave assim. Vai acabar assustando a moça, filho.
Ele caminhou para dentro da cozinha com passos calmos, firmes. Cada movimento dele era controlado demais para alguém que acabara de admitir algo tão monstruoso.
— É a verdade, Helen — disse, dando de ombros.
— Não vejo motivo para esconder esse fato. Inclusive, já disse isso para ela. E, se vai trabalhar para mim, é bom que saiba com quem está lidando e do que eu sou capaz.
Eu não consegui ficar em silêncio.
— Sinceramente, me assusta o modo como fala que matou seu pai como se tivesse orgulho disso. Isso só mostra o quão monstruoso é.
Os olhos dele escureceram.

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