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A OBSESSÃO DO PRIMEIRO-MINISTRO PELA BABÁ INSOLENTE. romance CAPÍTULO UM — FUNDO DO POÇO

ELISA RIVER

Cinco dias sem o emprego que eu amava com cada pedaço de mim.

E ontem… bateram na porta da casa onde nasci, onde guardei cada lembrança de infância, e me expulsaram como se eu fosse uma estranha. Tudo por corrigir o filho mimado de um banqueiro, e a esposa dele decidiu que uma simples professora não tinha esse direito.

Agora estou aqui, afundada no sofá da Cecília, olhos ardendo de tanto chorar, chá frio esquecido na mão, uma raiva tão grande que parece que vai me rasgar por dentro. Vinte e cinco anos e de volta à estaca zero. Dependendo da piedade da única pessoa que ainda não virou as costas para mim.

Cecília entra na sala com uma bandeja, café fumegante, biscoitos, aquele sorriso forçado de quem está tentando salvar uma amiga do abismo.

— Eli, pelo amor de Deus, você não pode ficar assim o dia todo. Vamos sair. E fazer qualquer coisa. Você não pode ficar assim, amiga. Reaja. — Tenta me animar. Balanço a cabeça.

— Só quero ficar aqui, remoendo minha raiva. — Murmuro. Ela senta ao meu lado, pega minha mão gelada.

— Tá, eu entendo. Mas escuta: meus pais estão dando uma festa na casa de campo hoje. Para receber meu tio Victor, aquele que eu te contei mil vezes, o primeiro-ministro do Canadá. E meus pais me obrigaram a ir. Vai estar lotado de gente poderosa, segurança pesada, zero celular permitido na área da festa. O lema dessas festas na família Baltimor é: acontecendo lá dentro, perece lá dentro. Ninguém julga, ninguém grava, ninguém lembra. Uma noite inteira para você ser quem quiser. — Comenta empolgada. Levanto os olhos, ainda sem acreditar direito.

— Festa? Fui demitida e despejada ontem, Ceci. Não estou com a menor vontade de ter gente rica me olhando como se eu fosse uma intrusa. — Menciono. Ela dá aquele sorriso torto que sempre me desarma e convence.

— Exatamente por isso, sua teimosa. Você precisa esquecer essa injustiça toda. Beber até o cérebro apagar, dançar até as pernas tremerem, transar com quem aparecer na sua frente se tiver vontade. Alguém que te faça gozar tão forte que você esqueça o nome daquele banqueiro filho da puta e da esposa venenosa dele. Juro que não te abandono… exceto se você peça para eu sumir porque arrumou um cara que valha a pena.

Fico quieta. A raiva ainda lateja no peito, mas a ideia de não passar mais uma noite chorando de raiva naquele sofá começa a ganhar força. Suspiro fundo.

— Está bem. Eu vou. Mas só porque você não ia me deixar em paz mesmo. — Concordo, me animando. Ela solta um gritinho de vitória e me esmaga num abraço. Dou um sorriso com sua alegria.

Uma hora de estrada depois, dobramos na entrada particular e meu queixo cai. A mansão parece um palácio de filme, toda iluminada, luzes brancas refletindo na pedra e no vidro, fila de automóveis que custam mais que a minha vida inteira. Seguranças de terno preto, discretos, mas com aquele olhar que diz “aqui ninguém passa sem ser convidado”. A música já pulsa abafada lá de dentro, misturada com risadas, copos batendo, um cheiro distante de sexo, dinheiro e liberdade absoluta.

— Bem-vinda à loucura dos Baltimor — Cecília pisca, entregando a chave ao manobrista. — Respira fundo, endireita essa coluna e lembra: ninguém aqui sabe quem você foi ontem e nem dá a mínima. Hoje você pode ser qualquer pessoa.

— Tomara que eu não me arrependa amanhã — murmuro.

Ela entrelaça o braço no meu e atravessamos a porta. O cheiro de perfume caro, uísque, e poder, me engole no segundo em que entramos, definitivamente, não estava mais no meu mundo. Puxo a barra do vestido mais uma vez, mas o tecido teimoso sobe de volta quase imediatamente.

Que seja! Hoje eu não ligo para nada.

Hoje o mundo lá fora e meus problemas, não existe mais. Hoje eu vou aproveitar.

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