POV: SKY BITTENCOURT
A toalha continuava presa com um nó firme acima dos meus seios, úmida da água morna que ainda pingava das pontas do meu cabelo ruivo. Olhei para a minha cama arrumada e respirei fundo, aproveitando a quietude do quarto.
Minha irmã tinha viajado ontem cedo para passar o fim de semana inteiro com o Christian, o famoso "Senhor C". Fazia anos que eu não via a Moon arrumar uma bolsa com um sorriso tão aberto e os olhos tão cheios de vida, sem carregar aquela sombra de medo constante que a ruína da nossa família tinha deixado nas nossas costas. Ela merecia cada segundo de sossego e felicidade.
Puxei a mala pequena em cima da colcha e joguei minhas mudas de roupa limpas lá dentro. O sobrado antigo de dois andares estava em silêncio absoluto. O imóvel era dividido em quatro casas: a minha ficava no piso superior, à esquerda; embaixo ficava uma porta de ferro que nunca vi aberta, trancada com corrente e cadeado enferrujado há anos; e do outro lado do corredor moravam vizinhos distantes que mal nos davam bom-dia quando passavam pelos degraus.
No passado, o Paulo Gouveia pagava essa moradia direto, abatendo o valor daquela miséria de três por cento do meu pai. Quando cortei os laços com a família dele e assumi as rédeas da minha vida, passei a fazer os depósitos por conta própria todo mês para uma conta no nome de Alberto Granini. Eu não fazia a menor ideia de quem era esse homem, se tinha trinta ou oitenta anos ou se ainda morava no Brasil. O dinheiro simplesmente saía da minha conta, o comprovante ia para a gaveta e a nossa vida seguia sem conversa e sem contato.
Três batidas secas na porta da sala cortaram a linha dos meus pensamentos.
— Já vai! — avisei, estranhando o barulho repentino.
Peguei o Robby que estava na cadeira e vesti, talvez pudese ser o Rocco que chegou mais cedo. Caminhei descalça até a entrada e olhei pelo olho mágico.
Havia um homem parado no patamar da escada. Ele vestia macacão cinza de brim com faixas refletivas, segurava uma prancheta de alumínio e carregava uma maleta pesada de ferramentas na mão direita. Tinha cabelo ruivo cortado baixo e uma barba castanha bem aparada, desenhada no rosto.
— Pois não? — perguntei pela fresta do trinco.
— Vistoria preventiva da rede de gás, senhora. Procedimento obrigatório do bloco antes do fechamento do laudo mensal.
— O proprietário, o senhor Alberto, não avisou nada sobre visita hoje.
— A imobiliária foi notificada ontem, senhora. É só uma checagem rápida de pressão nos tubos de cobre e na válvula do aquecedor para evitar corte geral da rua. Não levo três minutos.
Destravei a segunda tranca e abri apenas espaço suficiente para ele passar.
— Pode entrar, mas seja rápido, por favor. Eu acabei de sair do chuveiro e estou de saída.
O homem entrou com passos pesados e seguiu direto para a cozinha americana, pousando a maleta de metal no piso com um estalo seco. Ele se ajoelhou diante do armário debaixo da pia, puxou uma chave inglesa e começou a mexer nos canos.
Aqui no Sul, quem enfrenta o inverno de Porto Alegre sabe que chuveiro elétrico comum não dá conta do recado quando o frio aperta de verdade. Mesmo sendo um sobrado antigo dividido em quatro moradias e não um edifício moderno, toda a nossa água quente dependia daquele aquecedor a gás instalado na parede da cozinha. As tubulações de cobre levavam a água aquecida direto para o banheiro. Se o fornecimento de gás falhasse ou a válvula desse problema, a casa inteira ficava sem banho quente, e com o retorno do meu pai, eu não podia arriscar que ele ficasse sem essa estrutura básica.
Fiquei parada na soleira da cozinha, com os braços cruzados sobre o peito mantendo os olhos cravados em cada movimento dele.
— Costuma sentir cheiro forte quando liga o aquecedor? — ele perguntou sem virar o pescoço, batendo de leve a ferramenta no latão.
— Nunca sentimos cheiro nenhum aqui.
— O prédio tem estrutura antiga, essas conexões perdem a vedação com o tempo — ele disse, puxando um spray de espuma da bolsa e aplicando em volta da válvula principal. Ele limpou a garganta antes de soltar a próxima pergunta, em um tom casual demais: — Mora muita gente aqui?
Estreitei os olhos na mesma hora.
— Por que a pergunta? O metro cúbico do gás agora é cobrado por cabeça?
O sujeito soltou uma risadinha baixa, sem tirar os olhos da chave inglesa.

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