POV/ SKY
Mordi o lábio para segurar o riso diante daquele disparate.
— E antes de começar essa maratona de roedores, eu exijo comida. Comida de verdade.
— Eu já sei exatamente o veneno que você quer.
— Hambúrguer duplo com bastante queijo, bacon e um balde de batata frita.
— Pacote de cimento armado direto para a corrente sanguínea — ele resmungou, balançando a cabeça em fingida desaprovação. — Uma verdadeira aberração nutricional.
Quinze minutos depois, Rocco estacionou a Mercedes na vaga em frente ao Giraffas. Ele soltou o cinto, olhou para a fachada amarela e fez aquela cara de quem estava prestes a negociar com o submundo da gastronomia popular, me deixando no conforto do ar-condicionado enquanto a música continuava rolando no som do carro.
Encostei a cabeça no banco de couro e fechei os olhos. Os acordes suaves de violão começaram a preencher a cabine. Abri os olhos na mesma hora e estiquei a mão até o painel, aumentando o volume. Era Iris, do Goo Goo Dolls. Uma música que eu já tinha escutado tantas vezes, mas que agora parecia traduzir cada pedaço da bagunça boa que aquele homem tinha causado na minha vida.
And I'd give up forever to touch you (E eu desistiria da eternidade para tocar em você)
'Cause I know that you feel me somehow (Porque eu sei que de alguma forma você me sente)
Cantei baixinho, sentindo o peito aquecer. Acompanhei pelo vidro fumê enquanto o homem de terno sob medida atravessava o salão da lanchonete, alto e imponente, sem combinar em nada com aquele ambiente simples, mas fazendo tudo aquilo só para me agradar.
You're the closest to heaven that I'll ever be (Você é o mais próximo do paraíso que vou chegar)
And I don't wanna go home right now (E eu não quero ir para casa agora)
A voz subiu um tom, firme e sem vergonha nenhuma, deixando a letra me levar. Estar com o Rocco trazia essa sensação absurda de pertencimento, como se qualquer lugar longe dele fosse o endereço errado.
And all I can taste is this moment (E tudo que posso sentir é este momento)
And all I can breathe is your life (E tudo que posso respirar é a sua vida)
A porta do motorista abriu. Rocco entrou no carro equilibrando duas sacolas e os copos nos suportes. Ele puxou a porta com o cotovelo, fechou com uma batida firme e, em vez de me repreender pela cantoria no volume máximo, soltou o ar e cantou o verso seguinte direto para mim:
— I just don't wanna miss you tonight... — a voz grave dele preencheu o espaço, afinada e sem hesitar, emendando a tradução em um sussurro rouco: — Eu só não quero sentir sua falta esta noite.
Arregalei os olhos, encostei as costas no banco e encarei o sujeito alinhado ao meu lado.
— Nossa... você cantando?
Rocco desligou o som no botão do painel, ajeitou a gola da camisa e me lançou aquele meio-sorriso de canto, totalmente entregue.
— Pois é. Pessoas apaixonadas tendem a virar idiotas completos. É uma reação química inevitável.
Soltei uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás.
— Olha só, o grande Sr. Arrogante assumindo que virou um bobo.
— Só por você, Bittencourt. Não se acostume.
Ele esticou o braço e me entregou a sacola mais pesada. Tirei o meu pacote de dentro: um sanduíche gigantesco com tudo o que tinha direito, prensado no papel engordurado, acompanhado de uma montanha de batatas fritas douradas e estalando de quentes. Da outra sacola, ele tirou uma embalagem térmica bem arrumada com arroz, feijão, legumes e um filé de frango grelhado. Comida de gente metódica.
Apoiei o sanduíche no colo, enfiei a mão no saquinho de batatas e mordi uma, sentindo o sal na ponta da língua. Olhei para o perfil dele enquanto ele abria os talheres descartáveis. O Rocco falava sobre sentimentos com uma firmeza desarmante. Ele dizia que me amava, me provocava, assumia a própria loucura sem rodeios. Eu sempre fui a defensiva da relação, a que levantava muros e calculava o impacto antes de dar um passo. Mas olhar para ele ali, dividindo batata frita em um estacionamento com o terno amassado por minha causa, fazia qualquer barreira desmoronar.
Mastiguei devagar, engoli e respirei fundo, sentindo meu peito transbordar de um jeito manso.
— É, não é paixão, Rocco.
Ele parou a mão com o garfo no meio do caminho e virou o rosto na minha direção, me encarando com atenção.
— Eu sei que não é.
Apoiei o queixo na mão, inclinando a cabeça de leve.
— Por que você sabe que não é?

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