POV: DIEGO
Terminei de prender o relógio no pulso e fiquei alguns segundos olhando para o meu reflexo no espelho.
Eu tinha acabado de sair do banho depois da academia. O cabelo ruivo ainda estava úmido, os cachos começando a se formar de qualquer jeito sobre a testa, e os óculos estavam largados ao lado da pia. Sem eles, meu próprio rosto ficava ligeiramente desfocado.
Talvez fosse melhor assim.
Peguei a toalha e passei novamente pelo cabelo enquanto pensava no compromisso daquela noite. Alex já tinha mandado duas mensagens. Na primeira, perguntou se eu desistiria. Na segunda, disse que, se eu inventasse alguma desculpa relacionada ao trabalho, iria pessoalmente me buscar.
Sorri.
Eu não pretendia desistir.
Estava nervoso para caralho, mas iria.
Voltei a encarar o espelho e, por algum motivo, pensei nos meus pais.
Às vezes me perguntava se eles teriam orgulho do homem que eu tinha me tornado.
Eu não sabia.
Tinha passado boa parte da vida tentando fazer tudo certo. Ser um bom filho. Depois, um bom irmão. Um bom amigo. Um profissional competente. O tipo de pessoa em quem os outros podiam confiar quando alguma coisa desse errado.
Funcionava relativamente bem enquanto o problema era dos outros.
Quando o assunto era a minha própria vida, eu era uma merda.
Principalmente quando envolvia sentimentos.
Eu nunca soube lidar muito bem com eles.
Talvez por isso tivesse levado tanto tempo para entender a mim mesmo.
Quando eu tinha treze ou catorze anos, os garotos começaram a falar mais sobre meninas. Quem era bonita, quem eles queriam beijar, quem tinha peito, bunda, quem tinha ficado com quem.
Eu participava das conversas.
Olhava para as meninas e sabia quando uma era bonita. Nunca fui cego. Conseguia achar uma garota linda e continuar minha vida normalmente.
O problema eram os meninos.
Com eles, alguma coisa acontecia.
Eu reparava demais.
Um sorriso prendia minha atenção. Braços, mãos, boca, jeito de andar. Às vezes percebia que estava olhando e desviava imediatamente, tomado por uma vergonha que eu nem sabia explicar.
Durante muito tempo, achei que passaria.
Não passou.
Também não contei para ninguém.
Naquela época, ser diferente parecia a pior coisa que poderia me acontecer.
O que era engraçado, considerando que minha família nunca tinha sido exatamente convencional.
Eu ainda era criança quando meu pai voltou de uma viagem carregando um bebê.
Não entendia adultério. Não entendia casamento o suficiente para perceber a dimensão do problema. Só lembro de ouvir que aquela menina era minha irmã.
Sakura.
Minha mãe tinha perdido um bebê antes e queria muito outro filho. Anos depois, quando tive idade suficiente para entender de onde Sakura realmente tinha vindo, também tive idade suficiente para perceber o tamanho da mulher que minha mãe tinha sido.
Ela poderia ter olhado para aquela criança e enxergado a traição do marido.
Não fez isso.
Sakura chegou à nossa casa e virou filha.
Para mim, virou minha irmã no segundo em que a vi.
Era pequena, tinha olhos enormes, cabelo preto e liso e umas bochechas que faziam parecer que estava sempre guardando comida na boca. Eu lembro de ficar olhando para ela e sentir alguma coisa apertar dentro do peito.
Foi amor à primeira vista.
Depois ela cresceu e começou a me irritar.
Eu queria jogar videogame.

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