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Abandonada no altar, escolhida pelo CEO. romance Capítulo 3

A noite chegou cedo, como chegam as noites de outono — sem avisar, escorregando pela janela da cozinha enquanto Liv ainda achava que era tarde da tarde. Ela percebeu pela luz que mudou de tom, passou de amarelo para cinza e depois sumiu quase de vez, deixando só o reflexo da lâmpada no vidro da janela. Lá fora, a rua estava quieta.

Liv abriu a geladeira e ficou olhando para ela por alguns segundos sem realmente ver o que havia dentro. Depois fechou, abriu o armário, fechou também. Repetiu o movimento uma vez mais, como se a resposta fosse aparecer na segunda tentativa. Terminou tirando a tábua de corte, a panela grande e os legumes que havia comprado dois dias antes e que já estavam começando a murchar nas pontas — uma cenoura, dois talos de aipo, meia cabeça de repolho, uma cebola. Sopa. Era o que havia e era o que bastava.

Da sala chegava o som da televisão. Uma voz de locutor que subia e descia sem que Liv conseguisse entender as palavras, só o ritmo, e por cima disso a risada de Miguel — curta, aguda, a risada de menino de dez anos que ainda ri com o corpo inteiro. Depois a voz de Dona Carmem dizendo alguma coisa, baixinha demais para atravessar a parede, e Miguel rindo de novo.

Liv sorriu sem perceber. Depois voltou para a cebola.

Ela começou a cortar devagar, com cuidado, do jeito que o pai havia ensinado: a faca na diagonal, os dedos dobrados, nunca a ponta do dedo para fora. *Assim, Olivia. Você vai cortar a vida toda, aprende a fazer direito.* A voz dele na memória tinha aquele tom de quem está ensinando uma coisa pequena mas tratando como se fosse grande, porque no fundo toda coisa pequena é grande quando alguém te ensina com atenção.

O celular estava pousado na borda da pia. Ela havia colocado ali por hábito, para ouvir música enquanto cozinhava, mas não havia colocado música nenhuma. A tela acendeu sozinha com uma notificação e Liv limpou a mão no pano de prato e pegou o aparelho sem pensar.

Não era a notificação que a parou. Era o papel de parede.

Ela havia esquecido que ainda era aquela foto. As duas sorrindo na frente de um muro grafitado em alguma rua que Liv já não conseguia lembrar o nome, num dia de sol de dois anos atrás. Ela estava com o cabelo solto nessa foto, a franja voando um pouco por causa do vento, e a outra segurava um sorvete que já estava derretendo pela mão. As duas rindo daquilo, rindo de nada, do jeito que se ri quando se está completamente dentro de um momento sem saber que ele vai acabar.

A lágrima veio antes que Liv decidisse chorar. Escorregou pelo rosto e caiu no canto da boca, e ela ficou parada com o celular na mão e o gosto de sal nos lábios. Não limpou imediatamente. Ficou um segundo ali com a foto, com o sorvete derretendo para sempre naquele dia de sol que não voltava mais.

Depois pousou o celular com a tela para baixo e voltou para os legumes.

A cenoura ela cortou em rodelas, um pouco irregulares porque as mãos não estavam firmes. O repolho em tiras largas. O aipo em pedaços pequenos. Cada coisa na tábua, cada coisa no lugar, um movimento atrás do outro porque era isso que se fazia quando não se sabia mais o que fazer — continuava. Colocava a panela no fogo, botava um fio de azeite, jogava a cebola para refogar e esperava o cheiro mudar.

Capítulo Quatro — O que a sopa não aquece 1

Capítulo Quatro — O que a sopa não aquece 2

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