Ao ouvir aquilo da empregada, o coração de Lílian afundou de vez.
— Ah, e tem mais... Os empregados da família Dias sempre viveram assim. Então por que você seria diferente? Por que não aguenta?
Lílian não soube o que responder.
A família Dias... Os empregados de lá...
Era verdade. Muita gente que trabalhava para a família Dias vivia em condições miseráveis, quase tão ruins quanto aquelas. Mas também não passavam o dia só com um pedaço de pão.
Pelo menos tinham três refeições e comida de verdade na mesa.
Ela, não. Não tinha nada além daquilo.
Quando baixou os olhos para o único pão no prato, seco, frio, sem o menor vestígio de calor, Lílian sentiu o peito subir e descer com violência, tomada por uma revolta que já não conseguia conter.
Era de propósito.
Tudo aquilo era de propósito.
Isabela estava fazendo aquilo de propósito.
E ainda assim... O que ela podia fazer?
Mesmo sabendo que era intencional, o que estava ao alcance dela?
Agora, ninguém na família Pereira era capaz de enfrentar Isabela.
Então ela, sozinha, conseguiria o quê?
— Não vai comer?
Vendo que Lílian continuava parada, a empregada endureceu ainda mais o tom.
E, no instante em que fez menção de pegar o prato de volta, Lílian se lançou para a frente e agarrou o pão às pressas.
— Vou comer. Eu vou comer.
As palavras saíram entre os dentes, carregadas de humilhação e ódio.
Como ela poderia não comer?
Se não comesse, com que forças suportaria o que ainda vinha pela frente?
Havia dois dias que ela mal comia. Naquele momento, até meio pão já era coisa demais para desperdiçar.
A fome havia arrancado dela qualquer resquício de orgulho.
Ser tratada daquela maneira por Isabela era uma humilhação devastadora, mas, ainda assim, ela não tinha escolha senão engolir.
No fim, agarrou o pão e começou a devorá-lo em grandes mordidas.
Na cabeça dela, havia um único pensamento.
Terminar aquilo logo, subir para o quarto, tomar um banho quente e dormir debaixo das cobertas, num quarto aquecido.
O frio que havia passado naquela tarde, limpando o cercado, tinha sido insuportável. Várias vezes ela quase largou tudo e foi embora.
Mas, toda vez que pensava que, se não trabalhasse, não teria nem o que comer, acabava suportando.
Repetia para si mesma, uma vez após a outra, que, quando voltasse para o quarto, tudo melhoraria.
Bastaria entrar ali para voltar a sentir algum calor.
Mas o pão estava tão seco e duro que, ao mastigar, parecia borracha na boca.



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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Abortos Repetidos e Nenhuma Piedade: Os Culpados Vão Pagar
Tinha que ter como comprar o livro completo, pois como não está finalizado ainda não dá para saber por quanto ele vai sair no final......
Como Isabela não fez o teste de paternidade ainda?...
Livro excelente,mas demora muito para atualizar...
Posta mais capitulos...