No amplo e sofisticado apartamento de tons preto, branco e cinza, o celular no bolso esquerdo de Kylen vibrou.
A tigela de arroz estava vazia, e metade da comida nos pratos havia sumido.
Ele pousou o garfo ao lado de uma cicatriz falsa que acabara de arrancar do canto da boca. O pedaço de silicone repuxado mal o deixava abrir os lábios para mastigar.
Vinicius era eficiente em seu trabalho, mas às vezes exagerava na dose.
Porém, já que a encenação tinha chegado àquele nível, Kylen não tinha muito do que reclamar.
Ele tirou o celular do bolso e olhou para o visor. Seu olhar escureceu de imediato. Era a primeira ligação daquela pessoa desde o incidente do dia anterior.
Com um deslizar do polegar, atendeu, mantendo o tom de voz neutro:
— Tio Sebastião.
Do outro lado da linha, Sebastião Lourenço perguntou com a voz mansa:
— Já almoçou?
Kylen murmurou uma confirmação. Atualmente, de todos os membros da Família Lourenço, apenas Sebastião residia permanentemente na Mansão Lourenço. Ele era o irmão mais novo do seu pai, seu tio de sangue, e dono do temperamento mais dócil da família.
Fosse por laços de sangue ou por respeito, Kylen nunca adotaria uma postura abertamente hostil com ele.
O problema era que, se Sebastião tinha capacidade para gerir os negócios, a mesma habilidade lhe faltava na hora de criar o próprio filho.
— O senhor ligou para implorar por Alcides?
A mão de Sebastião, que segurava o telefone, tremeu violentamente.
Ele não havia pregado o olho a noite inteira.
Ao refletir sobre os ensinamentos que passara a Alcides ao longo dos anos, sentiu-se afogado em vergonha, principalmente porque o filho cometera atos que manchavam a honra da Família Lourenço. Na noite passada, ele havia se ajoelhado na capela da família, diante das memórias dos antepassados, para implorar por perdão.
Embora tivesse dito a Sylvia que Alcides era um filho indigno e um pecador contra a secular e nobre linhagem dos Lourenço, e que nenhum dos dois deveria intervir, agindo como se o rapaz sequer existisse...
Sylvia havia usado seus contatos para checar a situação de Alcides na prisão provisória. Logo de manhã, ela lhe telefonou segurando o choro, revelando que o filho ardia em febre, inconsciente e coberto de ferimentos. Ela implorou para que Sebastião intercedesse junto a Kylen.


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