No passado, quando Júlia passava pelo escritório e via as luzes acesas e a porta aberta, ela sempre parava um pouco.
Levava alguma fruta ou puxava assunto de propósito para trocar algumas palavras com ele.
Sérgio ligou o computador e virou a tela para outra direção.
Dessa forma, enquanto resolvia assuntos de trabalho, também podia ver a porta.
Fazer duas coisas ao mesmo tempo era uma habilidade básica de um chefe. Ele participou de duas reuniões e ainda fez uma ligação para o Éder.
Meia hora se passou.
Uma hora se passou.
Finalmente, passos familiares ecoaram do lado de fora da porta.
Sérgio aumentou um pouco o tom de voz, alternando entre dois idiomas, mas seus olhos furtivamente se desviavam para a porta o tempo todo.
Porém, ninguém bateu na porta, e muito menos passou por ela.
Sérgio desligou o telefone, caminhou até o corredor e esticou o pescoço para dar uma olhada.
E percebeu que a porta do quarto ao lado já estava fechada.
Ele franziu a testa levemente, achando aquilo um tanto estranho.
Não chegava a ser um sentimento doloroso, era apenas um vazio, exatamente como aquele corredor.
Sérgio ficou parado por um momento e depois foi até lá bater na porta.
A voz suave de Júlia atravessou a madeira:
— É você, Dona Eunice?
A porta se abriu, fazendo os cabelos de ambos balançarem levemente.
O sorriso de Júlia desapareceu.
Essa mudança brusca deixou Sérgio desconfortável.
Ela parecia não ter gostado muito de vê-lo?
— O que foi?
A garganta de Sérgio travou.
Boa pergunta.
Ele ficou em silêncio por dois segundos antes de soltar:
— Juliano foi preso. O que eu vou vestir amanhã?
Ao ouvir isso, Júlia teve a impressão de que ele estava arranjando confusão de propósito.
Seria porque ela foi embora sem se despedir hoje, ou porque não foi ajudá-lo a socorrer Clarice?
Ou talvez ele apenas precisasse de uma babá.
Mas que obrigação ela tinha de cuidar da rotina de seu futuro ex-marido?
Júlia riu com desdém internamente e rebateu perguntando se ele não precisava contratar um novo assistente.
Para sua surpresa, Sérgio realmente assentiu:
— Tudo bem, então me ajude a encontrar um novo assistente.
Ele puxou o celular do bolso:
— Sábado. Estou livre no sábado.
Sem fazer ideia de que, na verdade, a mente da jovem gritava: "Gente, o meu ship é super real!".
— Senhora, por favor, quais são os hábitos do Diretor Santana? Ele tem alguma restrição alimentar?
O ritmo de fala de Júlia não era nem rápido nem devagar, soando ainda mais profissional que o próprio Juliano. A cada pergunta, ela descrevia perfeitamente as preferências de Sérgio.
— O Diretor Santana tem problemas estomacais, não pode comer alimentos frios, crus, muito apimentados ou gordurosos. O café da manhã deve ser leve.
— Ele tem alergia a amendoim, inclusive foi parar no hospital há pouco tempo por causa disso.
— Depois das quatro da tarde, evite ao máximo que ele tome café.
— Ele detesta interrupções durante as reuniões; o celular dele deve estar preferencialmente no silencioso. A água do copo precisa estar sempre morna, e deve ser trocada a cada meia hora.
— Ele tem uma leve mania de limpeza. O escritório precisa ser limpo diariamente, e os documentos, categorizados...
Sérgio pegou um copo de água quente e encostou-se na ilha da cozinha, ouvindo Júlia instruir a nova funcionária.
Várias daquelas coisas ele sequer havia contado a ela.
Até mesmo quando a garota perguntava alguns detalhes, ele próprio não saberia responder.
Mas Júlia as enumerava como se contasse os tesouros de sua própria família.
De repente, Sérgio percebeu que Júlia realmente havia dedicado muita atenção a ele.
E aquele idiota do Tiago Cavalcante.
Não sabia de nada disso.
Ainda queria roubar a esposa dos outros?
Só em sonho.

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