Júlia usava uma calça de caimento impecável naquele dia, combinada com sapatos de salto grosso e bico fino.
A blusa curta, com amarração no pescoço, deixava apenas a largura de um dedo de pele à mostra entre a cintura e a calça.
Seu cabelo estava preso em um coque, com a franja solta de forma despretensiosa.
A proporção perfeita de seu corpo, os ombros incrivelmente bem definidos e a maquiagem impecável que exalava elegância conferiam a ela uma beleza que era, ao mesmo tempo, sofisticada e natural.
Embora tivesse se arrumado sem grandes pretensões, as pessoas que passavam não conseguiam evitar virar a cabeça para admirá-la.
Clarice começou a ter pequenos engulhos.
Quem visse a cena de fora até acharia que Júlia tinha acabado de sair do banheiro.
Júlia olhou friamente para Sérgio.
— Clarice não tem se sentido bem ultimamente... — disse Sérgio, apertando os lábios.
A entrelinha era clara: Júlia deveria ser mais compreensiva.
Júlia estava sendo tratada como se fosse repulsiva, e ainda esperavam que fosse magnânima.
— Se não está bem, não deveria sair de casa para se exibir.
Ela respondeu com um tom indiferente.
No segundo seguinte, Sérgio estendeu a mão e roçou levemente as costas da mão de Júlia.
Percebeu que estava gelada.
Um coquetel no jardim, com o pôr do sol, o céu alaranjado e a brisa suave.
Era romântico, sem dúvida, mas também um pouco sofrido.
Sérgio tirou o próprio paletó por iniciativa própria, com a intenção de colocá-lo sobre os ombros dela.
No entanto, Clarice cobriu o nariz com as mãos:
— Atchim!
Ela lançou um olhar de desculpas para Sérgio, erguendo os olhos como os de um filhote indefeso.
Uma imagem de dar pena.
O movimento de Sérgio parou no ar.
De um lado, a mulher a quem ele desejava dar o casaco; do outro, a enferma supostamente grávida, e tudo por um erro que ele cometera.
Ao ver a hesitação de Sérgio, Júlia baixou os olhos e desviou o rosto.
— Diretor Santana, acho que sua acompanhante precisa mais de cuidados.
Sendo uma reunião familiar, Sérgio não precisava manter as aparências ou se distanciar, como fazia em público.
Ele colocou o paletó sobre os ombros de Júlia e, virando-se para um funcionário que passava, pediu:
— Por favor, traga uma manta para esta senhora.
Clarice ferveu de raiva por dentro, mas não havia nada que pudesse fazer.
Júlia, no entanto, não aceitou a gentileza, devolveu o paletó nas mãos de Sérgio e deu as costas, afastando-se.
Os noivos subiram ao palco para compartilhar a história de amor deles, mas, logo nas primeiras palavras, ficou evidente que o discurso havia sido escrito por outra pessoa.
Osvaldo nem sequer conseguira decorar suas falas.
Logo depois, o jantar foi servido.
Tia Simone ajeitou o casaco de estilo tradicional com as duas mãos.
— Consogra, deixe-me contar a você, o banquete de hoje foi preparado inteiramente pelas mãos da cunhada do Osvaldo. Ela tem um talento incrível na cozinha.
Júlia, que estava sentada ao lado de Dona Helena, naturalmente escutou a declaração.
O motivo de Tia Simone rasgar elogios era a vontade de provar à família da noiva que a sua parte da família tinha um excelente relacionamento com Sérgio.
A ponto de a própria cunhada fazer questão de cozinhar no banquete de noivado.
Ao ouvir aquilo, Júlia não sentiu a menor alegria.
Apenas uma tristeza sutil.
Com exceção de Dona Helena, a maioria da família Santana era como Sérgio: enxergavam-na apenas como um mero símbolo.
Quando precisavam, tiravam-na da estante para usar e ostentar.
Quando não era mais útil, largavam-na sem pensar duas vezes.
Júlia curvou os lábios em um sorriso gélido.
Então, alguém cutucou seu ombro.

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