Após o fim da gravação, o silêncio fúnebre desabou e engoliu o clima. As expressões dos presentes metamorfosearam em vislumbres tenebrosos e desfigurados.
Em particular os olhos estalados miravam a patética figura de Simone. Os focos queimavam as entranhas da coitada, ridicularizada feito um bobo da corte cruel e difamador.
Os lábios de Júlia já se rasgavam, o contra-ataque pronto na ponta da língua... mas uma interrupção inesperada a pegou desprevenida; a mão pesada do marido traçara a rota pelo dorso da idosa sentada à frente e aprisionara o pulso dela a contragosto.
— Júlia, não se rebaixe por causa desse tipo de pessoa.
Um rosnado rasante preencheu a lacuna entre o ranger de dentes, enquanto a tigela colidia no assoalho da mesa em comunhão ao chamado frio:
— Éder!
— Remova imediatamente o Tio Paulo e Osvaldo Santana de seus cargos nas filiais. Quero ver o anúncio da mudança na diretoria em uma hora.
Palavras ao vento eram muito menos eficazes do que cortes reais nos interesses financeiros.
O rosto de Simone ficou pálido.
— Sérgio, o que está fazendo? Seu tio Paulo passou a vida toda na empresa. Nem mesmo o seu avô, por mais autoritário que fosse, tomou uma atitude dessas!
Sua voz tremia. Após falar, olhou para os diretores ao redor.
Ninguém deu uma palavra.
Simone levantou-se e apontou para Júlia:
— Ela é só uma mulher divorciada de você, a ex-esposa descartada pela família Santana, e você, por causa dessa rejeitada...
*Crack.*
Sérgio esmagou a taça de vinho em sua mão, a expressão sombria.
— A Tia Simone ainda não consegue controlar a própria língua. Éder, a partir de amanhã, inicie os trâmites no departamento jurídico. Vou comprar as ações da terceira família em meu nome.
Dessa vez, Simone finalmente sentiu medo.
Todas as ações.
Isso equivalia a trezentos milhões!
— Não, você não pode fazer isso.
— Eu posso.
Sérgio espanou os cacos de vidro da mão:
— Tio Paulo, quando os acionistas não integralizam seu capital no prazo ou o desviam, podem ser expulsos compulsoriamente. O fato de eu não falar nada não significa que não sei de nada.
— Só propus comprar suas ações para não expor a situação. Claro, podemos resolver isso de outras formas, você é quem sabe.
Paulo Santana não controlou a língua da esposa justamente por guardar ressentimentos da época em que foi rebaixado para uma subsidiária. Mas ele não imaginava que a situação chegaria àquele ponto.
Ele apertou as próprias mãos geladas e forçou um sorriso amarelo.
— Sérgio, somos todos da mesma família, para que agir assim? Eu garanto que não deixarei sua tia falar bobagens de novo.
Paulo olhou para a velha senhora:
— Mãe, diga alguma coisa.
Dona Helena Santana, após ouvir aquela gravação, quase precisou de seus remédios para o coração.
Ela soltou um 'humpf' pesado.
— Já não me meto nos assuntos da empresa há muito tempo.
Sérgio olhou para Éder:
— O que está esperando?
Paulo só pôde fechar os olhos. Um instante depois, lançou um olhar mortal para Simone.
— Além do mais, Tia Simone, Júlia não foi uma esposa descartada no divórcio. Fui eu quem foi dispensado por ela. Se você voltar a aborrecer a Júlia ou a minha filha...
Júlia olhou para Sérgio.

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