Júlia fitou os dois, sem piscar sequer uma vez.
— O que significa isso, Srta. Cardoso? Não me diga que passou todos esses anos aperfeiçoando suas habilidades de atuação apenas para que eu, alguém da área, fizesse uma avaliação crítica?
A voz de Clarice soava repleta de angústia:
— Desculpe, Júlia. Eu nunca quis separar você do Sérgio... Só queria tanto dar uma família ao Bernardo. A criança não tem culpa.
Lucas ainda não havia desligado e logo notou a falsidade e o drama naquelas palavras.
Ele aproveitou para clicar no botão de gravar a tela.
Dona Eunice foi a primeira a aparecer.
As pernas da senhora de idade já não ajudavam muito, então ela demorou um bocado.
Ao ver Clarice dizendo aquelas coisas para Júlia, ela sentiu que era uma desgraça para a família, tendo perdido toda a sua dignidade.
Júlia declarou:
— Você quer dar um lar para seu filho, Clarice, mas preste atenção. O problema aqui não sou eu, mas sim o seu querido Sérgio, que não te quer mais e insiste em formar uma família comigo.
Ela acenou para que Dona Eunice ajudasse Dona Helena a se sentar.
— Não adianta implorar para mim.
Dona Helena estava aflita. Se não fosse pelo garoto e para evitar um escândalo, já teria mandado seus funcionários a expulsarem.
— Srta. Cardoso, vá dizer tudo isso ao Sérgio. Este é um assunto entre vocês dois.
Clarice enxugou o rosto e tirou um documento de sua bolsa.
— Vovó, não acredite no que estão dizendo na internet. Essas coisas foram inventadas por gente que não suporta ver a mim e ao Bernardo felizes.
— Aqui está o teste de paternidade do Bernardo e do Sérgio. Não fizemos antes por consideração à empresa e ao Sérgio. Não me importo que me chamem de amante ou de mãe de um filho bastardo, mas, vovó, o Bernardo é seu bisneto biológico. A senhora não sente nem um pingo de pena dele?
O rosto de Dona Helena mudou ao ver o exame de DNA.
Os erros de Clarice eram culpa exclusivamente dela.
Mas se o menino realmente fosse sangue dos Santana, ele não poderia ser difamado daquela forma.
— Júlia, você sempre me odiou e quis se vingar. Eu entendo. Não quero competir com você por nada. Eu só espero que o Bernardo receba o amor do pai, assim como a irmãzinha Dora, e que tenha um lugar para viver.
Ela voltou o olhar para Dona Helena:
— Se a Júlia tem tanto ódio de mim, eu posso ir embora. Só lhe peço...
As pessoas idosas costumam amolecer o coração com mais facilidade.
Clarice puxou Bernardo para que se curvasse.
O menino não quis; ele se queixou de cansaço e choramingou, dizendo que queria descer para brincar.
Clarice deu um tapa nas costas dele.
— Pode chorar. Continue desobedecendo a Tia Júlia. Logo não teremos onde morar. Você é tão pequeno; se não tiver um pai, vai acabar virando um moleque de rua.
Ela se virou para Júlia, rogando:
— Júlia, olha só... a vovó ama o nosso Bernardo de verdade. Você, sendo tão carinhosa com ela, e ela te tratando com tanto afeto...
Bernardo chorava a plenos pulmões.
Clarice vertia lágrimas de forma quase melodramática.
Até mesmo os olhos de Dona Helena marejaram.
— Julinha, por que você não...
Dona Helena abriu a boca, mas estava sem graça de continuar a frase.
Clarice fechou os olhos como se tivesse tomado a decisão mais difícil de sua vida:
— Bernardo, preste atenção. A partir de hoje, a Tia Júlia será sua mãe. Você não pode voltar para casa, não me procure, ouviu bem? De agora em diante, você obedece ao seu pai e à mamãe Júlia.
Dessa vez, Bernardo ficou assustado de verdade.

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