Clarice expressou a mentira que havia tecido tão meticulosamente com o tom mais sincero que conseguiu.
Sérgio pegou o laudo.
Ele nem se importou em analisar de perto, apenas folheou algumas páginas antes de dar um leve sorriso.
Clarice observou-o com cautela, tentando decifrar seus pensamentos.
Trinta segundos se passaram.
Os olhos escuros e insondáveis de Sérgio pareciam dois espelhos.
Nos quais Clarice viu refletida a própria expressão forçando a calma.
— Sérgio...
— Hm.
Sérgio concordou com indiferença:
— Eu acredito.
Clarice não escondeu sua surpresa.
— O que foi? Achou que eu duvidaria de você?
A fisionomia de Clarice enrijeceu.
— Claro que não...
— Que bom. Você não precisa dar ouvidos aos comentários da internet.
Sérgio proferiu algumas palavras de conforto e, fitando-a pelas costas enquanto ela saía, revelou um sorriso pálido de escárnio.
Júlia ouviu quando Sérgio entrou em casa.
Ela também percebeu que ele partira junto com Clarice e não havia retornado.
Isso era ótimo.
Quanto mais evidências demonstrassem a inépcia dos Santana para cuidar de crianças, mais paz de espírito ela ganharia.
Sérgio voltou para a sede da empresa.
Éder entregou-lhe o documento:
— Este é o seu teste de paternidade com o jovem mestre, conduzido pela nossa equipe.
— Qual foi o resultado?
O secretário hesitou um momento antes de dizer a verdade.
— O laudo indica que o senhor e o jovem mestre são pai e filho.
Sérgio não se surpreendeu.
— Ótimo. Agora nos voltaremos aos assuntos da empresa. A respeito das famílias do Tio Paulo e dos outros tios, apenas os observem. Não interfiram. Deixem-nos fazer os joguinhos que preferirem.
Éder concordou.
Depois de partir em seu carro, Clarice foi diretamente ao encontro de Simone Santana, completamente alheia ao fato de que seu veículo estava sendo seguido.
Ao ver a filha retornar, Marlene Martins indagou:
— E aí, como foi?
— Foi muito bem. A velha senhora ainda sente muito carinho pelo Bernardo, mas o Sérgio diz acreditar e no fundo...
— Chega.
Marlene interveio:
— Um homem como Sérgio com certeza vai realizar outro teste por conta própria. O que ele diz não significa nada.
Ela retocou o batom, lançando um sorriso para o espelho:
— O próximo passo é envenenar o poço. Este laudo será útil para várias outras coisas.
Clarice hesitou.
— Mamãe, temos mesmo que chegar a esse extremo?
— Já é tarde demais para voltar atrás. O Sr. Augusto nunca recusou a nossa ajuda. E o Sérgio teve a audácia de me mandar para trás das grades por causa daquela estrelinha e usar isso para estrangular nossos negócios na Cidade N. Ele quem foi traiçoeiro conosco.
Marlene soava apática, mas transbordava ferocidade.
— E você ainda deu à luz. Se não fosse pelo Sérgio, estaríamos aqui agora? Se você não for impiedosa, vai passar o resto da vida criando um bastardo, sem nunca conseguir casar?
Clarice mordeu os lábios com força.
Ainda assim, como o Tio Paulo e a Tia Simone haviam apostado, eles acabaram entrando na onda.
O motivo era apenas um: todos estavam obcecados demais para abrir mão de todo aquele patrimônio multibilionário.
Especialmente aqueles que um dia experimentaram o sabor de ter tudo em suas mãos.
Os planos de Clarice estavam progredindo bem demais.
O que a fez quase esquecer que havia um certo alguém quando Leonel Guerra cruzou seu caminho.
— Bernardo, quem é?
Clarice disparou a pergunta, de dentro de seu closet.
Leonel esfregou as solas de seus sapatos no carpete perto da porta e olhou com desprezo para Bernardo.
Ele esticou a mão, apertando as bochechas da criança e forçando-a a olhar para cima.
O olhar que lhe dirigiu era idêntico ao de quem escolhe peixes em uma feira.
Bernardo berrou de volta:
— Dói! Me solta, tá doendo demais!
Clarice surgiu pela porta e arregalou os olhos diante da cena.
Ela disparou na direção do menino e o protegeu, puxando-o para trás de si.
— O que você quer aqui?
Com as mãos enfiadas nos bolsos, Leonel examinou a mulher à sua frente, esvaziado de expressão.
— De uns dias para cá, um monte de fotos tomou conta da internet e ver isso me fez lembrar de algo.
— Naquela noite, a primeira porta em que você bateu foi na de outra pessoa.
— Se não me falha a memória, o nome pelo qual você chamou foi Sérgio.
Clarice encostou o menino em si, encarando Leonel com uma imensa desconfiança.
A voz de Leonel flutuou, sem carregar um pingo sequer de cordialidade.
— Será que isso não é obra minha?

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