No segundo ano de casamento, Ayla, enquanto organizava a gaveta da escrivaninha, rasgou sem querer o certificado de casamento.
Foi até o cartório para emitir a segunda via, mas a atendente, franzindo o cenho diante do computador, murmurou:
— Senhora, o sistema não mostra nenhum registro de casamento em seu nome.
— Isso é impossível! Já faz dois anos que me casei. — Ayla respondeu, entregando o documento rasgado em duas partes.
A funcionária conferiu três vezes, paciente, antes de girar o monitor em direção a ela:
— Não há nada no sistema, veja. E o selo oficial está torto... Parece uma falsificação.
Ayla saiu do cartório atordoada, os passos cambaleantes. Nesse instante, o celular vibrou na bolsa.
— Srta. Ayla, bom dia. Aqui é o advogado responsável pelos negócios de seu pai. A senhora poderia vir ao escritório Fields Advocacia para assinar o acordo de herança?
"Que golpe baixo", pensou. Estava prestes a encerrar a ligação quando ouviu a voz do outro lado continuar:
— Srta. Ayla, sua mãe se chama Diana Alencar. Há vinte anos, ela a deixou na porta do orfanato municipal. Após uma investigação, confirmamos que a senhora é a única herdeira biológica de Samuel Fonseca, o antigo homem mais rico de San Elívar.
Ayla ficou imóvel, minutos depois, já seguia para o endereço indicado.
Ela ouviu do advogado a coisa mais absurda de toda a sua vida.
Seu pai biológico, Samuel Fonseca, era um magnata do setor financeiro. Morreu no mês anterior, deixando ações, imóveis e empresas avaliadas em bilhões. E ela era a única filha.
A mente de Ayla zunia quando o advogado perguntou:
— Qual é o seu estado civil? Tem filhos?
O rosto do marido surgiu em sua cabeça como um golpe.
Pensou no certificado de casamento rasgado que ainda estava na bolsa e apertou a caneta com força.
— Espere duas horas. — Disse. — Preciso confirmar uma coisa antes.
Ao sair do escritório, foi direto para a empresa de Gustavo.
A porta do escritório dele estava entreaberta. Quando ela se aproximou, uma voz feminina, madura e sedutora, soou lá de dentro:
— Gustavo, já faz cinco anos que nos casamos. Quando vai tornar isso público?
Ayla ficou paralisada.
Conhecia aquela voz. Era da antiga professora deles na universidade — Bianca Mendes.
Bianca era seis anos mais velha que Gustavo, mas, além da idade, nada nela denunciava os anos. Tinha beleza e presença que chamavam atenção por onde passava. Na época da faculdade, era admirada por todos, homens e mulheres, considerada a orientadora mais encantadora do campus.
Ayla prendeu a respiração, o corpo inteiro tenso. No instante seguinte, ouviu a voz do marido, a mesma voz suave e levemente rouca que um dia a fez se apaixonar:
— A empresa está prestes a abrir o capital. Ainda há muita coisa que preciso que ela resolva. E, além disso, o testamento do meu avô proíbe você de entrar na casa. Se tornarmos tudo público agora, minha avó vai se sentir pressionada... e eu não quero que você sofra com isso.
Um zumbido estourou nos ouvidos de Ayla. Levou a mão à boca com força, tentando conter o soluço que ameaçava escapar da garganta.
Ela juntou com cuidado os pedaços rasgados daquele falso certificado, colando-os com paciência, e o guardou na bolsa como se fosse um tesouro.
Desde o início, era ela a tola ridícula no meio de uma farsa.
Ayla saiu apressada da empresa e ligou imediatamente. Respirou fundo, a voz firme, controlada, quase irreconhecível:
— Sr. Ciro, o acordo de herança pode ser assinado agora. Além disso, atualmente estou solteira e não tenho filhos. Toda a herança será herdada apenas por mim.
Depois de concluir os trâmites, Ayla pegou o carro de volta para casa. No caminho, distraída, acabou sendo atingida por outro veículo e machucou a testa.
Após tratar o ferimento no pronto-socorro, se lembrou de algo e foi até o setor de ginecologia.
Quando recebeu o laudo, sentiu o coração desabar de vez.
— A senhora está dizendo que... o meu útero não tem nenhum problema, certo?
— Exato. De acordo com os exames, seu corpo está em perfeita saúde.
— Então eu posso engravidar?
— Claro.
— E isso não interfere em uma vida conjugal normal?
A médica, já com mais de cinquenta anos, hesitou um instante antes de sorrir, um pouco constrangida:
— Mas é claro que não.
Antes do casamento, Gustavo mostrara a ela outro exame, dizendo que seu útero apresentava graves anomalias que jamais poderia engravidar e que até mesmo o contato íntimo poderia causar danos irreversíveis ao corpo.
"Mesmo assim, eu quero me casar com você. É você quem eu escolhi para a vida toda."
Ele segurou sua mão naquela época, os olhos cheios de ternura e convicção.
Por causa dessa promessa, enfrentaram juntos a fúria da família Siqueira.
Ela viu o pai dele arremessar uma xícara de chá no chão e gritar:
— Vai casar com uma mulher que não pode ter filhos? Quer acabar com a família?
Também ouviu a mãe dele, em um encontro de família, chorar nos braços das parentes e lamentar:
— Meu Gustavo está completamente enfeitiçado por ela.
Mas ele sempre sorria e dizia:
— Não ligue para o que eles falam. Eu estou aqui.
Durante dois anos, as críticas veladas da sogra:"galinha que não bota ovo", "uma mulher que nem filho pode ter, pra que serve", grudaram nela como feridas que nunca cicatrizavam, acompanhando suas noites insones uma após a outra.
...
Ao saber do acidente de Ayla, Gustavo chegou rapidamente ao hospital para a buscar.
Vestia uma camisa branca, o corpo alto e firme de mais de um metro e oitenta avançando apressado pelo corredor. Ao vê-lo, Ayla, ainda tonta, recordou os seis anos desde que o conhecera.
O primeiro encontro acontecera no campus da universidade, no escritório de Bianca. Ela fora levar alguns documentos para uma colega e o encontrou ali, conversando com a professora. Quando ele ergueu os olhos, o olhar dos dois se cruzou, Gustavo inclinou levemente a cabeça em cumprimento, sem dizer nada.
Depois disso, vieram quatro anos de insistência incansável.
Gustavo era o rapaz mais admirado da faculdade: bonito, inteligente, de notas impecáveis e família rica.
Somava a tudo isso uma gentileza quase irresistível, e poucas mulheres conseguiam não se encantar.
Ayla não foi exceção.
Órfã, reservada e solitária, acabou cedendo à determinação e ao carinho com que ele a cercava.
No hospital, Gustavo falou por um bom tempo, tentando arrancar alguma reação, mas Ayla permanecia alheia. Pensando que ela ainda estava em choque, ele se inclinou para a abraçar. Nesse instante, Ayla o afastou com força, levantando-se de repente.
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