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Amor Falso Herança Verdadeira romance Capítulo 2

Ayla não teve tempo de reagir e o suco atingiu em cheio o seu rosto.

Ao ver a cena, as empregadas correram para ajudar a limpá-la.

— Thiago! — A voz de Gustavo ecoou, furiosa.

Assustado, o menino subiu as escadas em disparada. Gustavo deu um passo para ir atrás dele, mas Bianca se levantou rapidamente e o impediu.

— Gus, ele é só uma criança. Não use violência. Deixe que eu vá ver como ele está. — Disse ela, lançando de relance um olhar para Ayla, que ainda tentava limpar o rosto, mas preferiu se calar.

Só então Gustavo voltou a atenção para a esposa.

— Você está bem? Me deixe ver.

Ayla já havia se enxugado, mas a mão dele se aproximou novamente, tentando tocar o seu rosto.

— Está sujo. Não me toque! — Soltou sem pensar.

Gustavo pareceu não entender.

— Como eu poderia ter nojo de você? Eu só me preocupo.

Ele suspirou, tentando amenizar o clima.

— Se eu soubesse que o Thiago seria tão difícil, nunca teria deixado você cuidar dele sozinha.

Ayla arqueou os lábios em um sorriso irônico.

— Pois é. Se a mãe dele estivesse por perto, certamente faria melhor do que eu. Pena que ela morreu. A pobre madrasta aqui não sabe mesmo criar uma criança, não é?

Gustavo ficou imóvel por um instante, o rosto travado.

— Do que está falando? O Thiago é adotado. Ele só tem você como mãe. — Disse, tentando sorrir, e passou a mão nos cabelos dela com um gesto afetuoso.

Ayla não esperava o toque e sentiu um enjoo súbito, o corpo inteiro se enrijeceu.

Assim que voltou ao quarto, foi direto para o chuveiro.

Pouco depois, Gustavo apareceu à porta. Seu verdadeiro propósito era retomar o assunto que o consumia desde o jantar: convencer Ayla a aceitar que Bianca ficasse hospedada ali.

Mas "conversar", ela sabia, era só um disfarce.

Bianca era a esposa de verdade dele.

Ela, apenas a impostora que servia para manter a fachada.

— Agora a empresa está numa fase decisiva para abrir o capital, e o Thiago precisa de atenção. Você também é indispensável na empresa. A professora Bianca é especialista em educação infantil, você mesma viu como o Thiago a escuta...

— Está bem, então fica decidido assim. — Cortou Ayla, sem paciência. Quanto mais o ouvia, mais sentia o estômago revirar.

— Lalá, eu sabia que você entenderia. Você é sensata, sabe reconhecer o quanto eu te amo. — Disse Gustavo, aliviado.

O olhar dele se suavizou, e em poucos segundos ele se levantou para envolver a cintura dela com os braços.

Ayla girou o corpo rapidamente e levantou o celular diante dele. Na tela, havia a foto de uma mansão com vista para o rio, situada na região financeira de San Elívar, um dos bairros mais valorizados da cidade, ainda mais caro que o atual endereço dos Siqueira.

— Gustavo, o que acha desta casa? — Perguntou, com um sorriso tranquilo.

— A casa é ótima. Esse terreno vale ouro. — Respondeu ele, sem entender aonde ela queria chegar.

— Meu aniversário é no mês que vem. Eu gostei muito dessa casa. Por que não me dá de presente? — Disse Ayla, com a voz doce e o sorriso sereno.

Gustavo piscou, surpreso.

Durante dois anos, ela perdera tudo — tempo, carreira, dignidade.

Ayla deixara de lado um mestrado no exterior e uma proposta de uma grande empresa para ajudar Gustavo a salvar o pequeno negócio da família.

Em dois anos, a empresa se reergueu. Dentro de poucos meses, o lançamento na bolsa multiplicaria a fortuna dele em bilhões.

E ela? Continuava com as mãos vazias, prestes a ser descartada.

Ayla não pretendia deixar que eles vencessem. Nem perdoar.

Gustavo sempre prometia, com o tom terno que a encantava: "Tudo o que você quiser, dentro do que eu puder, será seu."

Mas Ayla nunca pedira nada... até agora.

Gustavo hesitou por um instante.

— Por que essa vontade repentina de comprar uma casa? A que temos não é boa o suficiente?

— Nossa casa é boa, mas não tem potencial de valorização. Já esta aqui é diferente, tem um ótimo retorno futuro. Além disso, com a empresa prestes a abrir o capital, seria perfeito receber convidados ali, dar jantares, mostrar o sucesso do negócio. Seria prático... e você ficaria ainda mais respeitado.

Cada palavra de Ayla parecia dita para o bem dele, o que logo dissipou a dúvida que começava a nascer em Gustavo. Ela ainda pensava primeiro nele, sempre. Nunca realmente gastava o dinheiro dele à toa, só queria o ajudar a crescer.

Por um instante, Gustavo sentiu um peso no peito, um toque de culpa, até mesmo ternura.

— Eu já tenho orgulho só de ter você. Não preciso de mais nada. — Disse, tentando se aproximar novamente.

Ayla deu um passo para trás.

— Eu disse que era um presente de aniversário. Finja que comprou pra mim. Você não vai ficar com pena, vai? — Falou com um sorriso leve, em tom de brincadeira.

Havia algo diferente nela naquela noite, algo que o deixava inquieto, quase fascinado.

Sem pensar muito, ele perguntou:

— E quanto custa essa casa?

— Não é muito. Só setenta milhões. — Respondeu Ayla, sorrindo, os olhos semicerrados.

O rosto de Gustavo endureceu por um segundo.

Não era mesquinho com ela, mas aquele valor era alto demais. Ainda assim, lembrando que o lançamento da empresa estava próximo e que contrariá-la traria mais dor de cabeça do que alívio, acabou assentindo.

— Está bem. Se você gosta, eu compro. — Disse por fim.

Pegou o celular ali mesmo e ligou para o financeiro diante dela.

Naquela noite, a conta pessoal de Ayla recebeu uma transferência de setenta milhões de reais.

Seguindo o pedido dela, Gustavo até escreveu na descrição: "Compra da casa para Lalá. Feliz aniversário."

O saldo do cartão, que antes marcava cento e cinquenta mil, agora mostrava setenta milhões e cento e cinquenta mil.

Desde que "se casou" com Gustavo, Ayla havia entregue a ele todo o controle financeiro da casa.

O dinheiro que tinha na conta era o que juntara com trabalhos de meio período durante os tempos de faculdade.

Em dois anos, não recebeu um único centavo de salário.

Na manhã seguinte, assim que saiu do quarto, Ayla viu, do alto da escada, a cena na sala de jantar: Gustavo, de avental, conversava e ria com Bianca. Thiago, grudado neles como uma sombra, seguia cada passo, comportado de um jeito que Ayla jamais viu.

Aquela imagem de harmonia de uma família perfeita se desfez no instante em que ela desceu os últimos degraus.

A mão de Bianca, antes apoiada no ombro de Gustavo, deslizou discretamente para o lado. O homem, por sua vez, caminhou até Ayla com um sorriso.

— Acordou? Eu mesmo preparei o café da manhã hoje. Vem experimentar.

Capítulo 2 1

Capítulo 2 2

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