"Anderson"
A verdade é que o Rui estava certo, a Bianca estava coberta de razão e a explosão dela foi como um toque de despertar. Desde que a Giovana contou tudo o que estava aconteendo com o meu irmão e eu não fazia nem ideia, eu me sentia entorpecido, mas Bianca gritando na minha cara que eu estava sendo orgulhoso e infantil me fez voltar a pensar. Eu estava fazendo tudo errado.
O Flávio me encarava como se quisesse ter certeza do que eu estava pedindo, mas eu não tinha dúvida, eu sabia que só um susto não tiraria o Felipe daquela confusão, mas o susto o faria me ouvir. Eu encarei o Flávio de volta com determinação.
- Oba! Meu tipo preferido de trabalho! - O Bonfim comemorou quebrando um pouco da tensão que pairava no ar. - Eu resolvo isso. Flávio, manda tirar o garoto de lá e levar pra mim na delegaciam depois você pode mandar invadir a jogatina e prender todo mundo de verdade. Mas presta atenção, Anderson, você tem que deixar o seu irmão passar a noite ou esse susto não vai adiantar nada.
- Combinado. Segura na delegacia, amanhã eu vou tirá-lo. - Eu pedi, sentindo o olhar da minha mãe sobre mim.
A minha mãe me olhou com uma expressão de puro desespero, os lábios trêmulos e as mãos apertadas contra o peito, como se eu estivesse assinando a sentença de morte do Felipe. Eu dei um passo na direção dela, olhando nos seus olhos.
- Mãe, é para o bem dele. E se você realmente ama o Felipe, vai deixar a gente cuidar disso ou vai ter que ir ao necrotério reconhecer o corpo qualquer dia.
Ela perdeu o fôlego com o impacto do que eu disse, colocou a mão trêmula sobre a boca, os olhos estatelados. Mas ela também já não aguentava mais e, por fim, concordou. Era cruel, mas ela precisava enfrentar que o Felipe estava fora de controle e dar dinheiro a ele não era a solução.
- Tudo bem, Anderson, faz do seu jeito. Eu vou pra casa, antes que o Ary desconfie...
- Puta que pariu! O Ary não sabe de nada? - Eu a encarei, a indignação tomando contas de mim ao me dar conta de que o Ary, assim como eu, estava sendo mantido no escuro. Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Minha mãe balançou a cabeça negativamente, encolhendo os ombros. - Pois vá para casa e conte pra ele! O Felipe mora com vocês, mãe, isso diz respeito ao Ary também.
- Anderson, vai para o bar, vai te fazer bem ocupar a cabeça um pouco. Eu vou levar a sua mãe em casa e conversar com o Ary. - O Rafael colocou a mão no meu ombro.
Eu nem argumentei mais. Minha mente estava exausta. A minha mãe se aproximou e colocou a mão no meu rosto.
- Eu quero o seu bem, meu filho, eu te amo. Mas eu também preciso salvar o Felipe e você é mais forte, mais ajuizado e sempre faz o que é preciso. Você tem a cabeça no lugar. - Os olhos dela eram de dor.
- Eu sei, mãe. E eu te amo, mas por causa de tudo isso eu posso ter perdido a Giovana e se for assim... - As lágrimas estavam se acumulando nos meus olhos, como uma represa prestes a se romper. A minha voz saiu embargada. - Se for assim, você me destruiu tentando proteger o Felipe. Vai, mãe, conta para o Ary. A gente se fala amanhã quando eu levar o Felipe pra você.
O Rafael guiou a minha mãe pelo braço e ela foi, caminhando devagar, num silêncio carregado de uma culpa que eu podia sentir emanando dela. O Flávio se aproximou de mim, bateu no meu ombro com simpatia e sussurrou:
- Vamos para o bar, cara. Você precisa respirar.
O bar estava lotado. O som de risadas altas, música, conversas animadas e o tilintar constante dos copos serviam apenas como ruídos que amplificavam a desordem dentro da minha cabeça. Eu estava sentado na ponta de uma mesa longa, cercado por professores e colegas que celebravam o fim do semestre e o êxito do juri simulado, mas a minha mente estava a quilômetros dali.
Eu mantinha um sorriso ensaiado no rosto sempre que alguém vinha me parabenizar, e sempre que perguntavam pela Giovana, eu sentia o gosto amargo das palavra que eu repetia, contando a mentira que o Rui havia arquitetado para nos proteger. Para todos os efeitos, a Giovana estava em algo importante com o Bóris e a Raíssa na farmacêutica.
- Teria ido atrás do Felipe...
- Pois é, se ela corresse para te contar você teria agido no calor do momento, teria perdido as suas provas, suas médias teriam baixado, mas nada disso importaria, porque você talvez tivesse sido preso com o seu irmão numa batida policial ou estaria no necrotério, morto pelos agiotas. No final a Bianca tem razão e a Gi fez a coisa certa, concorda?
- Você acha que eu estou querendo ser um mártir? - Eu perguntei com tristeza, essa nunca foi a minha motivação.
- Não, só acho que você realmente ama o Felipe, mas está agindo como a sua mãe. Você disse a ela lá na faculdade, para deixar a gente cuidar disso, porque a Bianca estava certa, a sua mãe não estava querendo ver a realidade do Felipe. A Gi te conhece e sabia que era isso o que ia acontecer, que você jogaria a sua vida para o alto para tentar ajudar o Felipe. Ela só tentou ajudar os dois, Anderson. Ela pediu ajuda para o Felipe e protegeu você. E o que faríamos hoje era ter um conversa calma com você, contando toda a verdade e garantindo que você não precisa suportar tudo sozinho.
- Meu Deus, a Bianca tem razão, eu fui um monstro com a Gi. - Eu resfoleguei.
- É, você foi bem babaca com ela. E está sendo injusto com a Bianca e com o Rubens também. Cara, você tem uma família aqui, com todos nós. Entende isso. Você não tem que fazer tudo sozinho. - O Flávio me deu uma sacodida pelo ombro. - Agora eu vou indo e você... resolve isso!
Depois que o Flávio saiu, eu fiquei ali naquele canto com a cabeça encostada na parede.
As palavras da Bianca continuavam ecoando na minha mente, me golpeando sem piedade: “Você foi um monstro com ela! Enquanto você bancava o ferido e imaculado, ela estava sofrendo.” E ela tinha razão. No meu afã de me defender da sensação de ser subestimado pela omissão da Gi, eu tinha sido cruel com ela deliberadamente. Eu quis que ela sentisse que havia me magoado, mas ao invés de só falar com ela, eu a magoei de volta.
O meu celular parecia morto no meu bolso, pesando uma tonelada. Eu o peguei e o encarei fixamente, ignorando o burburinho festivo do bar. E depois de vários minutos eu liguei para o número dela e foi direto para a mensagem de "celular desligado". Era uma colherada do meu próprio veneno. E eu sabia que não adiantava insistir.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque o livro do Anderson e da Giovanna não foi finalizado?...
Pq está travado, não consigo ler os próximos capítulos, depois do 265 Que inclusive é a parte da giovana...
Por que o livro da Giovana e do Anderson está ficando em meio ao livro do Jose Miguel e da Eva. Ficou muito bagunçado isso...
Faltou apenas os três últimos capítulos completos, poderiam liberar ne?...
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...