"Anderson"
Eu continuei parado ali naquele canto do bar por vários minutos, como se eu estivesse observando o mundo de fora da órbita, como se eu fosse um fantasma impotente.
- Ah, você está aí. - O Rafael se aproximou de mim. - Anderson, eu deixei a sua mãe em casa e conversei com o Ary. Pode ficar tranquilo que está tudo bem, o Ary compreendeu a situação e disse que conversa com você amanhã. Mas disse para você ficar tranquilo que ele cuida da sua mãe. E se você quiser ele busca o Felipe.
- Obrigado, Rafael. E a Giovana? - Eu precisava perguntar.
- Eu ainda não sei onde ela está. O Bóris e a Rai só me falaram para deixá-los cuidar disso e eu deixei. - Ele deu dois passos para longe e voltou a se aproximar. - Olha, Anderson, eu gosto muito de você, mas essa bagunça saiu de controle. Eu não vou te demitir, você é um excelente funcionário e eu não vou misturar as coisas. Mas eu te disse para não fazer a Giovana chorar. Eu estou tentando não ser um pai babaca que interfere o tempo todo, porque eu sei que relacionamentos são complicados e todo mundo comete erros, assim como eu sei que vocês se amam e se tiverem um pouco de maturidade, o que eu acredito, vão rasolver isso logo. No entanto, você foi um idiota hoje.
- É, acredite, eu sei. - Meu tom era de lamentação.
- Ótimo, então conserta isso e faz a minha filha sorrir de novo ou eu vou ser um pai muito babaca. - O Rafael avisou.
- Eu vou consertar isso, Rafael, nem que leve a vida inteira.
- Eu espero que não demore tanto. Agora vai pra casa.
- Não, chefe, vai você. Vai descansar, me deixa ficar aqui e me manter ocupado para não surtar sem saber onde ela está. - Eu pedi.
- Tem certeza? - Ele perguntou e eu fiz que sim. - Tudo bem. Assim que eu souber de algo te aviso.
A madrugada avançou impiedosa. Por volta das duas da manhã, as cadeiras já estavam sendo viradas em cima das mesas pelos garçons. A Bianca colocou a última bandeja sobre o balcão, pegou as suas coisas e saiu sem se despedir de ninguém, batendo a porta dos fundos com força. O Rui saiu de trás do balcão, ajeitou o paletó e caminhou até mim.
- Anderson, eu vou levar a Bibi pra casa e ficar com ela. Ela está irritada e eu acho que ela tem todo o direito de se sentir assim. E sei que você também tem todo o direito de estar magoado, inclusive comigo, mas nós só queríamos ajudar. - O Rui falou com a voz pacífica.
- Aquele dia que você saiu com ela da faculdade, vocês não foram a farmácia, foram?
- Não. Nós fomos falar com o Rubens. Porque a gente sabe que ele é tipo um pai para vocês e ele saberia o que fazer. A Gi estava muito preocupada, com você e com o Felipe, Anderson. - O Rui me olhou por um momento. - Olha, você é um irmão pra mim, desde que você chegou na escola com a Gi e me defendeu daqueles garotos idiotas, quando eu não conseguia me defender sozinho. Você é o tipo de cara que eu quero ser, justo, leal, dedicado, competente. Eu gosto muito de você e foi por isso que eu não te contei nada, porque assim como a Gi, eu só queria carregar o fardo por você um pouco e te deixar descansar. Entende?
- Entendo, Rui. E você entende que eu fiquei decepcionado por vocês acharem que eu não daria conta de equilibrar as coisas?
- Entendo. Mas a Gi não merece o que você fez com ela hoje. E eu nem estou falando da Maya pendurada no seu pescoço, você sabe que ela só fez aquilo porque você a deixou se aproximar o dia todo enquanto afastava a Giovana.
- Eu estou me sentindo péssimo por isso. - Eu me deixei cair na cadeira mais próxima.
- Que bom. Se você se sente péssimo, deixa o orgulho de lado e conserta as coisas com ela. Meu pai vive dizendo que o segredo para um casamento feliz é sempre pensar que é melhor ser feliz do que ter razão, porque quando a gente quer ter razão, acaba brigando com quem a gente ama.
- E você já aprendeu essa lição?
- Em que mundo você vive, Anderson? A Bibi sempre está coberta de razão, sempre! - Ele respondeu com convicção e pela primeira vez no dia eu dei um sorriso de verdade. - Só não conta isso pra ela.
- Diálogo. - Eu suspirei.
- Sempre! - Ele bateu a mão nas minhas costas. - Agora vamos lá pra casa, a sua irmã está muito irritada com você, da última vez que você a deixou assim ela raspou as suas sobrancelhas enquanto você dormia.
- Ela tinha só doze anos. - Eu comecei a rir me lembrando do dia e de como eu fiquei irritado.
- O que me preocupa é que agora ela sabe fazer coisa pior do que raspar sobrancelhas. - O Rubens estava me lembrando das aulas de defesa pessoal que a Bianca teve com a Giovana. - Vamos, você precisa dormir.
- Eu não vou conseguir dormir, Rubens.
- Vai sim. O Rafa pediu para te avisar que o Bóris encontrou a Ferinha. Ele a deixou em casa. Ela está no apartamento, trancada. - Eu não esperei que ele repetisse.
- Agora é que eu não vou dormir mesmo. Eu vou resolver a minha vida.
Eu peguei a chave do meu carro, a chave que o Flávio tinha forçado de volta contra o meu peito, e saí para a rua deserta. O ar frio da madrugada bateu no meu rosto, limpando a fumaça do bar e a exaustão que eu sentia. Eu entrei no carro e dirigi pelas avenidas vazias, vendo os semáforos piscarem em amarelo intermitente, como um convite para correr contra o tempo que eu mesmo havia desperdiçado.
Quando eu estacionei na garagem do prédio da Giovana, o silêncio permitia que eu ouvisse os meus batimentos cardíacos e os meus próprios pensamentos. Subi as escadas sentindo a ansiedade revirar o meu estômago. Eu não tinha mais o escudo da minha indignação de homem traído. Eu era apenas um idiota que estragou tudo por orgulho, desarmado, exausto e desesperado para ter a minha Ferinha de volta.
Eu parei em frente a porta, prestes a colocar a minha chave na fechadura, mas eu parei antes. Eu respirei fundo, sentindo as mãos tremerem levemente, eu não podia invadir se fui eu quem foi embora. Eu olhei para o relógio, eram quase quatro da manhã. Eu também não podia acordá-la. Eu fiquei parado em frente aquela porta, sabendo que ela estava lá dentro, mas que eu ainda precisava esperar. Eu encostei na parede ao lado da porta e deixei o meu corpo escorregar por ela até me sentar. Eu não dormi, embora estivesse de olhos fechados. O silêncio do outro lado durou uma eternidade, até que o clique da fechadura finalmente ecoou no corredor vazio e a porta começou a se abrir.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque o livro do Anderson e da Giovanna não foi finalizado?...
Pq está travado, não consigo ler os próximos capítulos, depois do 265 Que inclusive é a parte da giovana...
Por que o livro da Giovana e do Anderson está ficando em meio ao livro do Jose Miguel e da Eva. Ficou muito bagunçado isso...
Faltou apenas os três últimos capítulos completos, poderiam liberar ne?...
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...