"Anderson"
Quinze dias. Esse era o tempo exato que eu parecia ter voltado a respirar de verdade, respirar um ar leve, limpo, sem aquela fumaça sufocante de ansiedade e obrigação que me acompanhou por anos. Pela primeira vez na vida, eu acordava e a minha única preocupação era terminar a faculdade de Direito e a gerência do bar do Rafael.
O peso invisível de ser o pai substituto da minha família tinha sumido. O Ary tinha tomado para si a responsabilidade, ele cuidava da minha mãe, estava acompanhando o Felipe e o colocando na direção certa, e a Bianca cuidava da própria vida, mesmo morando comigo. Eu estava aliviado e não negava isso.
Eu tinha sempre feito tudo com amor, com respeito, sem me preocupar em receber nada em troca, porque o bem estar da minha família sempre foi a minha proridade e continuaria sendo. Mas eu estava cansado. E a minha mãe sempre dizia que uma hora todos estariam encaminhados e eu não teria que me preocupar mais. Essa hora tinha chegado e eu finalmente podia ser apenas o Anderson que tinha planos, se tornando dono do seu destino e que tinha uma namorada com a qual ele construiria o futuro.
Estava tudo leve e tranquilo agora. Pelo menos foi o que eu pensei...
- Ferinha, você sabe onde está aquele matrerial que eu estava estudando? Eu pensei que tivesse deixado na mesinha de cabeceira. - Eu me aproximei da Giovana na cozinha.
Ela estava linda, descalça, os cabelos presos em um coque bagunçado, e um vestidinho azul quase curto demais, extremamente concentrada em colocar a massa de um bolo na forma.
- Nós estamos de férias, Anderson! - Ela me repreendeu como fazia todos os dias.
- E é por isso que eu estou atualizando as matérias. - Eu segurei a sua cintura e dei um beijo na sua nuca.
- Deveria atualizar os nossos amassos, isso sim! - Ela reclamou, me fazendo rir.
- Eu posso fazer as duas coisas, você sabe. - Eu mordisquei o pescoço dela.
- Hum! Eu coloquei o seu material na gaveta do rack da sala. Seus óculos de leitura estão lá também. Coloque-os! Assim que esse bolo estiver assado eu vou arrancar o seu material das suas mãos e a sua roupa do seu corpinho.
- Quanto atrevimento! - Eu brinquei e voltei para a sala.
Eu abri a gaveta que ela havia indicado, tirei o meu material, mas antes de pegar os óculos eu vi um envelope grande, com uma grafia elegante impressa. Eu fiquei estático no meio da sala, sentindo o meu sangue gelar a cada linha que eu lia. Os meus olhos travaram nas palavras "Ginecologia e Obstetrícia".
Minhas mãos começaram a tremer de leve. Minha mente, começou a rodar um cronograma mental implacável. Fazia exatamente uma semana desde a nossa reconciliação. Naquele dia a tensão, a urgência e a saudade acumularam tanto que nós simplesmente esquecemos o mundo. Esquecemos as brigas, esquecemos o que tinha acontecido... e eu esqueci a porra do preservativo de novo! Na parede, na cama, no chão da sala. Eu tinha passado a noite anterior em claro na cama fazendo contas, à beira de um ataque de nervos. Eu estava prestes a comprar um teste de gravidez para a Giovana e agora encontrava aquilo.
Não... não era possível. Da outra vez tinha sido um engano, mas isso não aconteceria duas vezes. Eu já estava surtando, sentindo o chão sumir debaixo dos meus pés. Mas dessa vez eu não ia ficar esperando, eu ia confrontá-la, eu não ia esperar ser incluído, eu estava me incluindo.
- Gi... - Eu chamei, a minha voz saindo mais aguda do que eu gostaria, denunciando o meu pânico interno.
- Fala, Gracinha. O bolo está no forno, eu liguei o timer e nós temos quarenta minutos para um amasso. - Ela veio da cozinha sorridente e eu a peguei pela mão e a fiz se sentar ao meu lado no sofá.
- Gracinha, eu não estou grávida. Se te deixa tranquilo, eu fiz um exame de sangue hoje seguindo o protocolo que o Dr. Molina havia prescrito. O Dr. Molina é o meu novo ginecologista. Lembra que eu te disse que a minha médica ia se aposentar? Emtão, a minha consulta com ele era semana passada, mas ele precisou remarcar e eu fui lá hoje para colocar um implante, um método contraceptivo com taxa de eficácia superior a noventa e nove por cento. - Ela explicou, a voz mansa, mas firme. - Eu troquei o método contraceptivo, Gracinha. Fiz isso justamente para a gente não precisar entrar em pânico da próxima vez que você decidir me prensar contra uma estrutura vertical com aquela urgência toda. Não tem bebê nenhum aqui. É só prevenção de longo prazo. Estamos seguros.
Eu travei por um segundo, processando a informação. O ar que eu estava prendendo nos pulmões escapou em um sopro longo de alívio. Eu desabei a minha testa contra o ombro dela, apertando a sua cintura com força, rindo de nervoso contra a sua pele.
- Puta que pariu, Gi... - Eu murmurei, sentindo o meu coração finalmente voltar ao ritmo normal. - O meu coração quase parou. Eu já estava calculando o preço de berço e fralda e pensando em como contar para o seu pai.
Ela afastou o meu rosto de leve, me encarando com aqueles olhos atentos.
- Relaxa, amor, isso ainda vai demorar. Mas sabe que eu gostei de uma coisa? Você não se isolou. Não ficou em silêncio remoendo o pânico sozinho no seu canto como fazia antes. Você dividiu comigo. Na hora. Não tem segredos entre nós, Anderson, nunca mais, nem para te proteger.
Eu sorri de canto, a puxando para um beijo demorado, sentindo o gosto dela e a apertando contra o meu corpo.
- Eu aprendi a lição, Ferinha. Nós estamos juntos na vida. - Eu sussurrei ainda com a boca pairando sobre a dela.
Mas antes que o clima pudesse esquentar, o som estridente da campainha cortou o silêncio do apartamento. Eu franzi o cenho, quebrando o contato. Nós não esperávamos ninguém. A Giovana saiu do meu colo e caminhou até a porta.
No segundo em que ela abriu a porta e se afastou dando passagem para o visitante inesperado, o meu corpo enrijeceu por puro reflexo. Vestindo uma camisa polo alinhada e segurando as alças de uma mochila nas costas, o Felipe deu um passo para dentro parecendo um tanto sem graça.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque o livro do Anderson e da Giovanna não foi finalizado?...
Pq está travado, não consigo ler os próximos capítulos, depois do 265 Que inclusive é a parte da giovana...
Por que o livro da Giovana e do Anderson está ficando em meio ao livro do Jose Miguel e da Eva. Ficou muito bagunçado isso...
Faltou apenas os três últimos capítulos completos, poderiam liberar ne?...
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...