"Anderson"
Zíper por zíper, mala por mala, caixas e mais caixas. Tudo fechado. Eu olhei para o meu antigo quarto e senti um misto estranho de nostalgia e alívio absoluto. As camisas sociais e os ternos, as roupas de trabalho, os jeans e os casacos pesados, as pilhas de livros de Direito já estavam devidamente acomodados na bagagem.
Eu passei os últimos anos da minha vida naquele apartamento que funcionou como um escudo e uma âncora para mim, o meu porto seguro no momento em que eu tentava segurar as pontas para não desabar. Agora as coisas estavam mudando outra vez. Eu tinha um distintivo de policial e o futuro planejado de um jeito que parecia imutável, era hora de finalmente dar o passo que eu vinha adiando por zelo excessivo.
Eu sempre seria grato ao Flávio pelo conselheiro e amigo que ele era, por ele ter sido um apoio sólido em um período muito difícil, mas eu nunca teria como retribuir o gesto dele ao me entregar aquele apartamento. O que ele fez foi algo que só um pai ou um irmão faria. E agora ele estava mais do que feliz por eu estar indo dividir a vida de vez com a Ferinha. E me garantiu que não tinha o menor problema a Bianca continuar onde estava pelo tempo que ela quisesse. O gesto generoso dele me emocionou mais uma vez.
- É isso! - Eu respirei fundo e comecei a levar as malas e caixas para o meu carro.
Eu tinha conversado com a Giovana, com o Rafael e com o Flávio. Eu tinha dito a cada um o que era preciso e recebi de todos confiança. A Giovana estava ansiosa para que eu me mudasse logo, o Rafael disse que sabia que eu ia cuidar bem da filha dele e o Flávio disse que eu demorei muito a me decidir. Mas todos me responderam com o mesmo "até que enfim" quando eu falei sobre ir morar com a minha namorada.
Mas ainda faltava a parte mais difícil, contar a minha decisão para a minha irmã e garantir que tudo ficaria bem, que eu não a estava abandonando. Eu peguei a última mochila e fui para a sala, me sentei no sofá e esperei a Bianca chegar do trabalho. Claro que ela chegou com o namorado a tiracolo, aqueles dois não se largavam e até a mãe dele já estava fazendo planos de casamento para o filho.
Eles passaram pela porta rindo, o Rui trazia nas mãos as sacolas de um mercado perto do apartamento, a bolsa da Bianca pendurada no ombro e um sorriso bobo no rosto enquanto dava um beijo rápido no rosto dela. A Bianca tinha o mesmo sorriso bobo no rosto. Eu pigarreei, assumindo aquela minha velha postura formal de irmão mais velho protetor.
- Vocês dois não se largam mais? - Eu impliquei com eles e o Rui deu uma risada.
- Olha quem fala! - A Bianca riu. - Hoje não é o seu dia de ronda oficial aqui em casa não, seu polícia. - A Bianca me provocou.
- Eu vou colocar isso na cozinha, Bi. - O Rui saiu da sala, muito à vontade, como se estivesse em casa.
- Bi, senta aí um minuto. Precisamos ter uma conversa séria. - Eu falei seriamente e ela franziu as sobrancelhas.
- Ih, não! Se brigou com a Gi eu só te digo uma coisa: eu estou do lado dela! - A Bianca avisou e se sentou ao meu lado. - Fala, seu polícia, o que foi?
- Rui, já que você está aqui, vem participar da conversa. - Eu chamei e o Rui colocou a cabeça para fora da cozinha.
- Oba! Reunião de condomínio. - Ele caminhou despreocupado até a sala.
- Tá cada dia mais folgado, hein, Ruizinho! - Eu brinquei, mas ainda estava sério. Assim que ele se sentou eu comecei a falar. - Bom... eu tomei a decisão definitiva que de certo modo te afeta, Bi. Mas não precisa se preocupar ou entrar em pânico. - Eu comecei, limpando a garganta, tentando suavizar o impacto. - Eu estou me mudando hoje para o apartamento da Gi. Eu já fiz as contas e vou continuar cobrindo a metade do aluguel e as despesas da casa e...
- Graças a Deus! - A Bianca respirou aliviada, me interrompendo, jogando os braços para cima e soltando uma gargalhada alta. - Maninho, não me leve a mal, mas eu não aguentava mais você por aqui!
- Anderson, eu ia conversar com você de um jeito mais formal do que esse que a Bi falou, mas você sabe como a sua irmã é. Eu só quero te garantir que não precisa se preocupar. Eu vou cuidar bem dela. Eu amo a sua irmã. - O Rui falou firme.
Na minha frente não estava mais o menino desengonçado que eu conheci anos atrás, estava um homem que sabia o que queria da vida e que tinha certeza de que a minha irmã era o amor dele.
Eu soltei uma risada alta, balançando a cabeça e me levantei do sofá. Eu passei anos sofrendo com a síndrome do "filho útil" e da responsabilidade extrema, para no fim ser praticamente expulso de casa pela minha irmã caçula com um sorriso no rosto. Mas aquele sorriso não me magoava, ele fazia com que tudo se acalmasse dentro de mim como um domingo ensolarado. O sorriso dela segurando a porta aberta para que eu saísse me garantia que o ciclo de sacrifícios pela família tinha sido completamente superado.
- Eu sei que você vai cuidar dela, Rui. - Eu estiquei a mão, mas o Rui me puxou para um abraço de irmãos. - Vou avisar ao Flávio que estou te passando o aluguel.
- Não precisa se preocupar, eu ligo pra ele. - O Rui sorriu, ele já estava assumindo tudo o que podia ali.
Eu caminhei para a porta e dei um beijo na testa da minha irmã. Olhei os seus olhos brilhantes e aquele sorriso que não saía do seu rosto.
- Seja feliz, encrenca. E não esquece, minha porta sempre estará aberta para você! - Eu garanti e entreguei as chaves do apartamento. Ela me deu um abraço apertado e um beijo no rosto.
Assim que eu saí pela porta ela bateu. Enquanto eu ia na direção do elevador eu ainda ouvi a comemoração dos dois lá dentro. Aquilo me fez rir e pensar como seria quando eu chegasse no apartamento da Ferinha pra ficar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque o livro do Anderson e da Giovanna não foi finalizado?...
Pq está travado, não consigo ler os próximos capítulos, depois do 265 Que inclusive é a parte da giovana...
Por que o livro da Giovana e do Anderson está ficando em meio ao livro do Jose Miguel e da Eva. Ficou muito bagunçado isso...
Faltou apenas os três últimos capítulos completos, poderiam liberar ne?...
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...