"Rui"
Eu ainda estava pensando que novidade era aquela da Bianca se interessar por gatos, ainda mais um cego, a Bianca não tinha animais de estimação, ela não tinha nem bichinho de pelúcia!
- Meia hora, Bianca, depois disso desocupa a minha sala. - O Anderson avisou antes de passar pela porta e fechá-la atrás de si.
- Você contou pra ele, Bibi? A Gi pediu para não contar. - Eu me levantei para ir atrás dela, mas a Bianca trancou a porta e se virou na minha direção.
- É melhor para a Gi que ele saiba. Agora esquece os dois, porque parece que você anda escondendo alguma coisa de mim. - Ela parou bem na minha frente, com os braços cruzados e parecendo bem irritada.
- Bibi, eu não sei nada sobre gato nenhum... aliás, desde quando você se preocupa com gatos cegos?
Ela começou a rir com a minha pergunta e eu já não estava entendendo mais nada. Ela nem parecia mais irritada. Mas ela colocou a mão no meu peito e me empurrou até que eu colidi de costas contra a mesa.
- Além de cego o gatinho é lento! - Ela comentou com a voz mansa. - Rui, você tem alguma coisa para me dizer? Para me contar?
- E-eu? Nã-nãão, nadinha. Por quê? Deveria? - Eu comecei a ficar nervoso, o que o Anderson havia dito para a irmã?
- Ah, mas eu acho que tem, Rui. Se o que o meu irmão me contou for verdade, você tem muita coisa para me dizer. - Ela se aproximou tanto de mim que eu me encostei na mesa e curvei o corpo para trás.
- Bibi, eu não sei o que o Anderson te contou, mas com certeza eu posso explicar.
- Ah, pode? Então começa, Rui. - Ela sorriu e fez um movimento com a sobrancelhna como se tivesse me pegado na mentira.
- O que você quer saber? Pode perguntar, você sabe que eu não minto pra você, nós somos amigos. - Eu sabia como a Bianca era, ela me faria suar com alguma pergunta indiscreta e depois riria dizendo que era brincadeira.
- Nós somos amigos, Rui? - Ela perguntou suavemente e ali estava o perigo. Eu apenas fiz que sim. - Então me diz, gatinho, quantas garotas você já beijou?
Eu engasguei e senti o suor frio brotar em minha testa. Esse tipo de pergunta eu não podia responder, não ainda. Imagina se ela descobre que eu, com quase dezenove anos, o mais próximo que estive de beijar uma garota foi um selinho sem querer numa prima quando eu tinha treze anos?! E isso porque nós estávamos brincando e acabamos nos trombando. Foi muito constrangedor!
A verdade é que ser um adolescente gordinho e tímido não atraía a atenção das meninas. E quanto mais as piadas na escola ficavam cruéis, mais retraído eu ficava. Era mais fácil me esconder do que arriscar furar a bolha e conhecer pessoas. Enquanto as garotas no colégio riam de mim e falavam coisas como "nenhuma garota vai gostar de você", repetindo apelidos maldosos como se eu fosse um móvel sem sentimentos, os garotos faziam as piadinhas sem graça de sempre, que eu quebraria as cadeiras, que eu sairia rolando em uma descida ou nunca seria bom no futebol.
E as coisas foram ficando cada vez mais difíceis. Eu vivia com roupas largas e casacos, porque queria esconder o meu tamanho. Eu queria me esconder. Com o tempo eu aprendi a rir de mim mesmo antes que eles rissem, para ver se doía menos. E foi assim até que a Giovana voltou para a escola com o Anderson a seguindo. Aqueles dois mudaram a minha vida.
Quando eu conheci a Bianca eu ainda era o gordinho desajeitado, mas já estava indo para a academia e cuidando da alimentação. Mas a Bianca não se importou, ela me tratou como se eu fosse como os outros, ela não fez piada, ela não se afastou, pelo contrário, ela grudou em mim, começou a ir para a academia comigo, me chamava para sair, não tinha vergonha de mim. Me apaixonar por ela foi inevitável.
Mas quando eu perdi peso e as garotas começaram a se aproximar a Bianca começou a aparecer com aqueles caras que ela tirava nem sei de onde e isso foi ficando irritante. Só que depois que eu me apaixonei por ela, eu não olhei para nenhuma outra garota, eu não quis beijar nenhuma outra.
- Você está nervoso, Rui!
- Eu não estou nervoso, Bibi! - Eu passei a mão na testa para secar o suor, eu estava muito nervoso. - Tá quente aqui, você não acha?
- Ah, eu gosto desse calor. Vai, Rui, me responde. Você beijou aquela grudenda da Diana? Ou aquela loira da academia que vive se exibindo pra você? Me diz, Rui, quantas?
- Pra quê falar disso, Bibi? Isso é bobagem!
Eu tentei me erguer, mas foi uma péssima idéia, porque nós acabamos ficando ainda mais próximos e eu já estava prevendo um desastre, um selinho sem querer seguido de um silêncio constrangedor, como aconteceu quando eu tinha treze anos.
- Não é bobagem, Rui! Eu preciso saber. - Ela não recuou e se aproximou tanto de mim que nossos corpos se tocaram.
Minha cabeça estava explodindo, eu não tinha idéia do que estava acontecendo, minha boca estava seca e eu não conseguia me afastar dela. Eu nem queria. Na verdade, eu deveria criar coragem e me declarar para ela de uma vez, ali mesmo, e beijá-la, mas eu nem sabia como fazer isso e o meu nervosismo se misturou com a minha velha insegurança que ainda dava as caras de vez em quando.
- Por que você precisa saber disso, Bibi? Em quê isso importa?


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...