"Anderson"
A risada do Flávio reverberou pelo telefone, alta e divertida, carregada de experiência, o que me fez pensar que ele talvez soubesse mais do que eu poderia supor.
- Café? Esquece o café, Anderson Cavalcante! Pelo seu tom de voz, você precisa é de um whisky ou de um manual de sobrevivência. Me encontra no Clube Social em vinte minutos. A Gi andou pedindo conselhos para a minha baixinha e se a Gi finalmente resolveu mostrar as garras, como eu imagino, eu quero ouvir cada detalhe dessa sua "derrota" triunfal.
- Pelo visto eu liguei para o cara certo. - Eu dei uma risada. - Te vejo lá.
Eu desliguei o celular ainda sentindo o formigamento nas mãos. Eu tinha entrado naquele apartamento preparado para fazer um pedido de desculpas e me explicar para a minha namorada, depois daquela palhaçada da Maya. Mas eu não me desculpei... e saí de lá como um homem que acabava de descobrir que a sua maior sorte era ter se rendido aquela Ferinha linda e cheia de atitude. Ainda sorrindo eu dei a partida no carro, o Flávio tinha razão, eu precisava de algo mais forte que um café.
Eu entrei no Clube Social, um lugar exclusivo frequentado por pessoas de uma classe social que eu nunca imaginei conhecer. Eu já tinha me encontrado com o Flávio ali algumas vezes e sempre me surpreendia com a aura do lugar, era elegante sem ser pedante, tinha toda a classe do velho dinheiro, mas com a graça do novo mundo. Mas o Flávio pertencia àquele lugar, mesmo que não fizesse questão e não transparecesse, porque na verdade ele era a pessoa mais simples que eu já havia conhecido. Como dizia a Manuela, o "grandão" tinha o coração no lugar certo.
- Você está com cara de quem foi atropelado por uma carreta, Anderson. - O Flávio nem esperou eu sentar para soltar a primeira. Ele empurrou o copo na minha direção e deu um gole demorado no dele. - E, pelo brilho nos seus olhos, você não anotou a placa porque estava ocupado demais agradecendo pelo impacto.
Eu soltei um riso seco e me afundei na cadeira de couro. O peso do dia parecia ter se dissipado, mas a memória do que aconteceu no apartamento da Giovana ainda estava vívida demais, eu ainda sentia o toque dela.
- Pra você ver, eu fui subestimar a Ferinha, Flávio. Erro de principiante! - Eu confessei, sentindo o calor do uísque descer queimando. - Sério, eu me iludi pensando que tinha o controle sobre alguma coisa. Achei que, por ser... um pouco mais experiente, por ser o cara que já viveu mais, eu é que daria as cartas.
O Flávio soltou uma gargalhada grave que fez lgumas pessoas olharem para a nossa mesa.
- Controle? Com uma mulher daquela linhagem? Você é um otimista, Anderson. A Giovana, meu caro, é da mesma estirpe de Melissa Lascuran Molina e companhia, ela tem o mesmo ímpeto que as garotas. Você as conhece, sabe como elas ditam as regras e elas mesmas as quebram.
- É, eu subestimei a Ferinha. Erro grave. - Eu esfreguei os olhos e olhei bem para o Flávio. - Ela pediu conselhos para a Manu?
- Pediu. Mas não me pergunte o quê, minha baixinha é fiel as amigas e não me conta o que elas estão armando. Porém... considerando o que a Gi me perguntou recentemente, eu tenho uma idéia. Me conta, o que ela aprontou?
Eu hesitei por um segundo, girando o gelo no copo. Como explicar para o meu mentor que a garota que ele tratava como uma filha me deixou sem ar em um box de chuveiro?
- Ela mudou o jogo. - Eu resumi, tentando manter a voz firme. - Mudou o perfume, mudou a postura, mudou até o jeito de me olhar. Ela me desarmou completamente... e eu, que sempre tive controle e sempre soube dar uma segurada nas situações, me vi simplesmente... aceitando.
O Flávio inclinou-se para frente, a expressão ficando mais séria, mas ainda com um fundo de camaradagem.
- Escuta aqui, Anderson. O mundo mudou e quem não se adapta, se perde. Você foi o porto seguro dela quando a vida dela desmoronou. Você continua sendo a rocha dela, o protetor. Mas agora, ela está se descobrindo mulher e uma mulher independente e que sabe o que quer. Isso não tira o seu valor como homem, só muda a sua função. Você não decide por ela, você não controla as coisas mais, agora você é o parceiro, é quem vai estar ao lado dela para o que der e vier.
- É, ela realmente não é mais uma garota. - Eu suspirei.
- Agora me explica, o quê exatamente a Giovana aprontou que te deixou assim sem rumo? - O Flávio não ia aceitar evasivas, eu pedi conselho, era justo que ele pelo menos soubesse sobre o quê.
- Rolou uma confusão na faculdade... - Eu contei sobre a armação da Maya e sobre o perfume, sobre como a Giovana enfrentou a situação e o ultimato que ela me deu para o almoço.
- Ah, que queria ter visto isso! - O Flávio estava rindo. - E como foi o almoço?
- Ééé... então, quando eu cheguei, quem abriu a porta pra mim não foi a Gi de sainha curta e sapatilha, cheirando a algodão doce. - Eu falei e o Flávio ergueu as sobrancelhas interessado. - Ela estava linda, bem vestida, a saia ainda era curta, mas era diferente. E ela estava usando um sapato de salto alto que... ai, Flávio, qual a magia dos saltos altos, cara?
- Aaahh... e você ainda nem viu o poder deles acompanhados de nada mais que uma lingerie.
- Pode ser que eu veja no sábado. - Eu contei e o Flávio quase engasgou e se debruçou sobre a mesa.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...