"Giovana"
Dormir nos braços do Anderson na minha própria casa teve um sabor de conquista. Mas a bolha estourou cedo na terça feira. Assim que pisamos no nosso corredor da faculdade, eu senti o clima pesado. O Anderson parou para conversar com um colega, mas eu o deixei para trás e caminhei em direção ao Rui, que vinha a passos largos e com cara de poucos amigos.
- Gi! - O Rui me alcançou e me puxou para o canto, com aquela cara de quem passou o fim de semana de castigo. - Como foi lá? O Anderson sobreviveu às montanhas ou você o devorou vivo?
Eu ri, sentindo minhas bochechas esquentarem.
- Foi... perfeito, Rui. Nem consigo descrever o quanto foi perfeito e incrível. E você e a Bianca?
Ele murchou um pouco, encostando-se nos armários.
- Ah, você sabe. A Bianca é maravilhosa e eu peguei uns conselhos com o Flávio, mas ela quer ir devagar. Tipo, velocidade de tartaruga com sono. Eu respeito, claro, mas às vezes eu sinto que sou o único virgem maior de dezoito anos num raio de mil quilômetros.
- Você não é o único, Rui. Mas acredite, a espera vale a pena quando é com a pessoa certa. A Bianca quer ir devagar porque ela sabe o seu valor. Escuta o que eu estou te dizendo: a espera faz parte do espetáculo. - Eu respondi tentando animá-lo, e ele me olhou com os olhos arregalados, captando a mensagem nas entrelinhas. - Mas se você quer saber como agilizar as coisas, faça a Bianca tomar banhos gelados!
- Isso é golpe baixo. - Ele comentou e abriu um sorrisinho maldoso. - Mas eu gostei. Tem algum ponto específico que mande para o banho mais rápido?
Eu o puxei para perto e expliquei no ouvido dele o que fazer. No final ele deu uma gargalhada adorável.
- Bibi vai tomar tanto banho gelado que vai ficar gripada. - Ele concluiu.
- Mas, quando ela quiser avançar o sinal, você segura a onda, se valoriza, você é o virgem, faz ela querer romper o seu lacre mais do que tudo na vida. - Eu pisquei para ele, sabendo que a minha sugestão era uma maldade, mas era uma maldade gostosa. - Agora, foco. O que está acontecendo essa faculdade hoje? Estou achando o clima meio estranho.
- Garota, como diz o Moreno, você tem faro! - Ele me olhou orgulhoso. - É, as coisas por aqui não estão muito bem. Eu só não quis atrapalhar o seu fim de semana perfeito. - Ele respirou fundo e cuspiu o nome como se fosse veneno. - A Maya. Ela está possuída. Ela entrou com um pedido formal na coordenação.
- Como assim um pedido na coordenação? - Eu perguntei já sabendo que era sobre o juri simulado.
- De acordo com ela, nós não estamos aptos a dividir com a turma dela o juri simulado desse semestre. E ela usou a sua estratégia de Provas Indiciárias como base da petição dela, dizendo que a fragilidade do que você está impondo é tão grave que comprova o que ela diz que nós vamos atrapalhar o juri e comprometer o desenvolvimento de habilidades da turma dela.
- Ela não desiste, não é? - Eu ajustei a alça da minha bolsa, sentindo a adrenalina subir. - O que exatamente ela está dizendo?
- Ela disse que a sua estratégia é "literária demais" e não se sustenta. Ela está lá dentro da sala, tentando convencer os outros alunos da turma dela a apoiarem, dizendo que você não tem técnica, se impôs no grito na biblioteca e que o Anderson está te apoiando porque é seu namorado. Ela tem o apoio de uns alunos do último ano. E o coordenador está lá dentro assistindo a argumentação dela.
- No grito? - Eu senti o sangue ferver. - Ela vai descobrir que o meu grito se chama estudo e uma vontade louca de calar a boca de veterana repetente e arrogante. Ela quer técnica? Pois ela vai ter um massacre técnico.
Eu me afastei do Rui e peguei o celular. Eu não ia apenas aparecer naquela reunião, eu ia chegar com munição pesada. Disquei o número do Flávio, meu BFF ia me ajudar com certeza.
- Flavinho, meu delegado lindo e precioso... sou eu!
- Gi, minha princesa, eu estava ansioso para saber das novidades. Almoça comigo hoje?
- Com você eu vou até pra lua, Flávio. Mas antes, eu preciso de um favor... dos grandes. Sabe o negócio do juri simulado?
- Claro, Gi. Você está com alguma dúvida?
- Eu estou seguríssima, mas acontece que a vaca que anda cercando o meu Gracinha acha que pode me passar a perna, então eu pensei em acabar com a raça dela de uma vez... com classe e estratégia. - Eu sorri e expliquei ao Flávio o que estava acontecendo.
- Gi, entra lá e para essa reunião. Qual é a base do processo?
- Ampla defesa! Se ela me acusa, eu tenho direito a me defender. Ah, mas eu vou esfregar a cara dela na minha técnica! - Eu sorri.
- Isso aí! Peça ao coordenador o seu direito de defesa, seja precisa, técnica, não caia em provocação e diga que a sua turma tem direito a estar presente. O único lugar que cabe todo mundo é o auditório. Consegue uma hora pelo menos, é o tempo que eu preciso pra chegar aí com o seu reforço.
Enquanto eu confirmava com o Flávio, vi o Anderson passar bufando em direção a sala dele, ele já sabia. Eu me despedi do meu amigo, guardei o celular e sorri. O dia seria longo, mas eu estava mais afiada do que nunca.
- Ah, colega... - Eu me virei para a Maya, jogando os cabelos para trás. - Se há uma acusação formal à coordenação que pode cercear o direito acadêmico de uma turma inteira, torna-se um processo administrativo. - Eu rebati, técnica e fria. - Coordenador, o senhor concorda comigo?
O homem respirou fundo e enxugou a testa com um lenço.
- Lá se vai a minha calma manhã de terça. - Ele resmungou. - Srta. Ferri, é só um trabalho que a sua turma também fará quando chegar o momento.
- Provavelmente fará, mas não é só um trabalho, Coordenador. É uma oportunidade de troca acadêmica e de enriquecimento dos nossos conhecimentos. Uma oportunidade de aprender com os nossos veteranos. Simplesmente nos retirar do juri simulado é limitar o nosso acesso ao conhecimento. Nós estamos dentro do ambiente acadêmico, Coordenador, o lugar de aprendizado e as ferramentas precisam ser disponibilizadas.
- Se toca, Giovana! Sua turma está prejudicando o aprendizado da minha. - A Maya reagiu.
- Sendo assim, temos um impasse, Maya, porque a sua turma quer obstacularizar o aprendizado da minha. Por isso, Coordenador, eu faço aqui um requerimento verbal de suspensão imediata desta reunião. Não permitirei que uma decisão seja tomada sem que todos os afetados estejam presentes para ouvir as "falhas" que a veterana aponta e sem que tenhamos a oportunidade de defender a nossa posição.
O Coordenador massageou as temporas e olhou da Maya para mim. O silêncio na sala era absoluto.
- A senhorita propõe o quê, exatamente? - Ele perguntou.
- Que essa discussão seja levada ao Auditório Central, hoje, às quatorze horas. Com a presença das duas turmas, dos professores e de quem mais desejar assistir. Se a viabilidade técnica do trabalho estará comprometida com a nossa participação, a minha colega não terá problema em convencer o senhor e o conselho dos professores na frente de todos, com direito a réplica, tréplica e assistentes técnicos. Ampla defesa em seu sentido mais puro. Ou você tem medo de um debate público, Maya?
O rosto dela ficou vermelho. Ela não podia recuar sem parecer covarde diante de todos ali.
- Por mim, tudo bem. Prepare o seu lenço, Giovana. Você vai passar vergonha no auditório. - A resposta afiada dela me fez sorrir. Quanto mais confiante ela estivesse, maior seria a queda.
- Se você diz... Coordenador? - Eu encarei o homem.
- Muito bem, está decidido. Reunião suspensa. Nos vemos às quatorze horas no auditório. Ampla defesa, réplica, tréplica e que vocês façam jus ao nome dessa instituição e mostrem que já aprenderam alguma coisa. Você conseguiu a sua audiência, Srta. Ferri! - O homem se levantou bufando. - Agora eu vou organizar esse "coliseu"... eu podia tanto estar olhando os catálogos de lançamentos de obras para a biblioteca, mas não, tenho que deixar os leõezinhos se digladiarem até a morte acadêmica... - Ele saiu resmungando, mas antes de passar pela porta se virou. - Quero todos vocês lá, é tarefa obrigatória agora!
Eu saí da sala sem olhar para trás. Eu precisava me preparar porque depois desse embate uma de nós estaria acabada nessa faculdade e não seria eu!

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Pq está travado, não consigo ler os próximos capítulos, depois do 265 Que inclusive é a parte da giovana...
Por que o livro da Giovana e do Anderson está ficando em meio ao livro do Jose Miguel e da Eva. Ficou muito bagunçado isso...
Faltou apenas os três últimos capítulos completos, poderiam liberar ne?...
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...