"Giovana"
O Auditório Central da faculdade nunca esteve tão cheio. O burburinho era constante. Não eram apenas os alunos de Direito, mas estudantes de outros cursos que se amontoavam nas galerias, atraídos pelo possível barraco e a fofoca acadêmica. A notícia de que uma caloura ia enfrentar a veterana mais "descolada" da faculdade em um debate aberto se espalhou como um incêndio.
Eu estava do lado de fora do auditório, olhando pela porta aberta aquele amontoado de gente e pensando que eu não tinha ficado tão nervosa assim no bar. Talvez porque no bar os clientes iam e vinham, mas aqui, eu veria esses mesmos rostos no dia seguinte. Meu coração batia forte, mas eu não estava com medo, eu sabia o que eu tinha que fazer.
- Nervosa, amiguinha? - A voz profunda do Flávio me fez sorrir.
Ele estava impecável em um terno cinza chumbo que gritava autoridade e destacava aqueles olhos verdes que pareciam duas pedras preciosas. O Flávio tinha quase a idade do meu pai, mas tinha uma beleza que fazia qualquer mulher parar para olha-lo.
- Um pouquinho. Mas você sabe, eu não fujo do desafio. E com o meu time de peso... - Eu sorri. - Eu vou esmagar aquela vaca!
Ao lado do Flávio, o Juiz Fabrício gargalhou. Era outro, que parecia vir de um mundo onde os homens eram todos de tirar o fôlego, o mesmo lugar de onde o Flávio e os amigos dele saíram.
- Gostei dessa garota, Moreno! - O Juiz Fabrício comentou.
- Eu te disse que esse casal é especial. - O Flávio sorriu orgulhoso como se fosse o meu próprio pai.
- Cheguei! - O delegado Bonfim chegou a passos apressados e me deu um abraço rápido. - Vamos acabar com aquela vaca hoje, Giovana. E se não for suficiente a surra de argumentos que você dará nela, a gente dá aquela enquadrada nos fundos do palco e deixa alguns ossos quebrados.
- É isso aí, Bonfim! - Eu concordei, pensando que não era uma idéia ruim.
- Meu delegado, não incentiva a volta da "track-track"! Eu trabalhei duro pra Gi sossegar um pouco. - O Flávio repreendeu o Bonfim.
- Ah, nem me lembre... essa menina ainda é uma lenda no presídio feminino. A surra que ela deu naquela da quadrilha de tráfico humano e na "viúva negra" virou lenda urbana lá. - O Dr. Romeu comentou.
Aquele advogado era especial, ele me conhecia e já tinha ajudado o Flávio a me livrar de alguns problemas.
- Sabe o que eu acho, Dr. Romeu, acho que o senhor faz o coordenador do meu curso parecer um estagiário. - Eu sorri.
- Ferinha, está na hora. - O Anderson se aproximou, parou na minha frente e segurou o meu rosto com as duas mãos. - Eu vou estar lá do seu lado e eu vou aplaudir a dua vitória. Agora é com você.
- Vamos lá, Ferinha, é a sua hora de brilhar, nós somos apenas apoio. Me deixa orgulhoso. Eu quero poder dizer para a minha baixinha que eu também te ensinei uma coisa incrível, porque ela não para de falar como é boa professora. - O Flávio comentou com um meio sorriso, mer fazendo dar uma risada boa que acalmou os meus nervos.
E foi assim que eu entrei naquele auditório, com um sorriso confiante no rosto, o Anderson e o Rui ao meu lado e quatro dos homens mais respeitados no meio jurídico atrás de mim. O barulho das conversas morreu instantaneamente, transformando-se em um silêncio sepulcral que começou na primeira fileira e subiu até o teto.
O Coordenador, sentado à mesa diretora, arregalou os olhos e me observou brevemente, ele tinha reconhecido o meu time de reforço. A Maya, que estava no palco conferindo suas anotações com um sorriso de escárnio, me olhou confusa, ela não tinha idéia de quem estava comigo, afinal, ela não prestava atenção no que era importante.
- Boa tarde a todos. - Eu cumprimentei ao pegar o microfone. A minha voz ecoou pelo sistema de som, clara e sem um único tremor. - Coordenador, conforme o requerido e aceito, trouxe comigo meus assistentes técnicos. Creio que os Delegados Flávio e Bonfim, o Juiz Fabrício e o Dr. Romeu dispensem apresentações formais.
Um murmúrio chocado percorreu a plateia. Alunos cutucavam uns aos outros, reconhecendo os rostos que costumavam ver nos jornais.
- E a minha turma é a que estuda a jurisprudência da semana passada, não a da década passada. - Eu rebati, caminhando até a beira do palco. - Coordenador, a colega não apresentou um único acórdão recente. Ela não fundamentou porque e nem como a minha turma está prejudicando o juri simulado. Ela apenas usou o seu tempo para destilar um preconceito acadêmico infundado.
Olhei para o Flávio, que me deu um aceno de cabeça imperceptível, e para o Anderson, que assistia a tudo com um sorriso de quem sabia que eu estava confortável com o que eu tinha que fazer.
- O fato, senhores... - eu continuei, voltando-me para a plateia -, é que a Maya não teme pela "qualidade do aprendizado". Ela teme que uma caloura entregue um resultado melhor do que o dela. E, diante do silêncio dela agora... - Eu sorri triunfante encarando a Maya.
Era a minha vez e por quase uma hora eu falei sobre a minha tesa para o juri, expliquei sobre cada pormenor como se fosse uma professora experiente. Eu finalizei argumentando sobre o quanto juntar as turmas e tornar o juri simulado um trabalho multidisciplinar favorecia a todos e como contribuiria positivamente no aprendizado geral. Quando eu terminei, o silêncio da Maya já era o resultado do meu trabalho bem feito. Ela olhou para o pai, o advogado de família, que desviou o olhar, visivelmente constrangido. Provavelmente ele foi iludido por ela, pensando que fosse apenas uma querela acadêmica e que sua presença pudesse intimidar uma caloura.
Depois de alguns minutos de deliberação com os professores, o Coordenador pigarreou, limpando o suor da testa, se levantou e caminhou até a frente.
- Creio que... a exposição foi esclarecedora. A tese da Srta. Ferri não apenas é viável, como conta com o aval de autoridades máximas do nosso estado. O requerimento de separação das turmas está indeferido. O júri simulado permanece unificado, o Sr. Anderson Cavalcante continua com a liderança técnica e a Srta. Giovana Ferri continua como a assitente da acusação. Desejo boa sorte para os professores que estão participando disso. - Ele se virou e me encarou. - E eu ainda tenho cinco anos aqui com você.
Eu senti um certo lamentar na voz dele, como quem sabe que o recreio acabou e que agora a coisa tinha ficado séria. O auditório explodiu em aplausos. O Rui gritava como se estivéssemos em um estádio. A Maya desceu do palco quase correndo, as lágrimas de raiva borrando a maquiagem.
Eu senti uma mão pesada e quente no meu ombro. O Anderson.
- Você não apenas sepultou a Maya, Gi. Você construiu um monumento em cima. - Ele sussurrou no meu ouvido, me puxando para um abraço apertado diante de todos.
- Eu avisei, Gracinha, que eu ia acabar com aquela vaca. - Eu sorri, escondendo o rosto no peito dele.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Pq está travado, não consigo ler os próximos capítulos, depois do 265 Que inclusive é a parte da giovana...
Por que o livro da Giovana e do Anderson está ficando em meio ao livro do Jose Miguel e da Eva. Ficou muito bagunçado isso...
Faltou apenas os três últimos capítulos completos, poderiam liberar ne?...
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...