"José Miguel"
O meu assombro era tamanho que eu não pude disfarçar, o que aquela mulher tinha feito era terrível e o desprezo e repulsa que eu sentia por ela estavam estampados no meu rosto.
- Como ela foi capaz de fazer isso? - Eu perguntei tomado pelo horror. - Ela matou pessoas! Ela matou quem a salvou!
- Ela não quis fazer isso, foi um acidente. - Ele a defendeu energicamente. - Ela fumava, mas era proibido fumar dentro da fábrica e o gerente não permitia que os funcionários deixassem o posto de trabalho para fumar. Até para ir ao banheiro havia horários e tempo determinado. Vários funcionários fumavam escondido em algum canto lá, aproveitavam algum descuido do gerente. A Caridade era responsável por entregar os insumos solicitados pelo mestre padeiro, ela trabalhava no depósito. Naquele dia, ela estava fumando num canto, quando o gerente entrou. Ela se assustou e jogou o cigarro fora. Ela achou que tinha apagado.
- Mas não apagou. - O Matheus balançou a cabeça. - Isso foi irresponsável. Pessoas morreram por causa de um cigarro.
- É horrível, eu sei. E ela já convive com a culpa há cinco anos. Ela tem pesadelos, ela acorda chorando, desesperada, ela sofre todos os dias. - Ele explicou e eu até podia entender o quanto era difícil lidar com a culpa, isso, por si só, era um castigo. - O gerente perguntou alguma coisa para ela e saiu. Ela voltou ao trabalho e quando percebeu, as chamas já estavam subindo. Ela tentou apagar, mas o extintor estava vazio, o fogo pegou na ponta do jaleco que ela usava, o tecido sintético pegou fogo rapidamente e quando ela o tirou, parte do tecido grudou no rosto dela. Ela começou a gritar, saiu correndo, mas a essa altura o fogo já estava se espalhando e ela não tinha percebido, porque o depósito era separado do restante da fábrica por divisórias de madeira finas. O resto vocês podem imaginar. Mas ela nunca quis ferir ninguém! A Carmem tem um vídeo da Caridade dizendo que foi ela quem colocou fogo na fábrica.
- O que a Carmem fez? - Eu já tinha uma teoria, mas eu queria ouvir toda a verdade.
- A Carmem ofereceu pagar o tratamento para a Caridade se ela se passasse por sua esposa ali no hospital. A Caridade recusou, então a Carmem ameaçou entregá-la a polícia. A Caridade aceitou, a Carmem pagou o tratameto. - Ele me encarou.
- Então eu não falei com a Cora no hospital. - Eu apoiei os cotovelos na mesa e a cabeça nas mãos. - Até onde aquela mulher chegou?
- Não, seria impossível. A sua esposa estava gravíssima e depois do parto ela teve uma parada, foi intubada, mas não resistiu. Enquanto você falava com a Caridade, eu levava a maca com a sua esposa para o necrotério. Eu sinto muito que você tenha sido enganado, mas a verdade é que eu nunca entendi o que a Carmem pretendia com isso. - Ele finalmente esclareceu a dúvida que me corroía.
- Me culpar, me prender a ela pela culpa. Se a Caridade sente tanta culpa, você sabe como é. - Eu dei de ombros. - Os últimos cinco anos da minha vida foram um inferno e agora que eu deixei aquilo para trás a Carmem usa a Caridade outra vez.
- Olha, José Miguel, a Caridade e eu planejamos fugir, eu só precisava entregar meus últimos trabalhos e vender a casa. Ela não queria fazer isso, mas a Carmem... - Ele fechou os olhos e respirou fundo. - Agora de todo jeito a Caridade vai ser presa.
- Por que ela não confessou que tinha culpa do incêndio? Por que ela não contou a verdade, que foi sem querer? - O Matheus quis saber.
- Porque ela teve medo da cadeia e de ser linchada pelos colegas e pelas famílias deles. E depois, ela teve esperança do rosto ser reconstruído, mas como um castigo todas as cirurgias deram errado, até que ela desistiu e se escondeu. Ela se enterrou nessa casa, quase nunca sai, apenas para as consultas médicas. - Ele explicou.
- E como você entra nisso? - Eu o encarei.
- O Aroldo me demitiu, assim como demitiu todos que viram a sua mulher morrer e enterrou a carreira de cada um. Eu fui atrás dele e ameacei contar ao Dr. Molina sobre os medicamentos. Ele me disse que se eu fizesse isso ele me envolveria e acabou me oferecendo o emprego como enfermeiro particular da Caridade, a Carmem estava pagando por isso. Eu aceitei. Durante o tempo em que eu cuidei dela, eu descobri a mulher além do rosto desfeito, uma mulher boa, gentil, que fazia bem. Eu me apaixonei por ela. E agora a Carmem nos destruiu.
- Talvez não. - Eu o encarei. - Vocês vão me ajudar a acabar com a farsa da Carmem e aí, talvez, eu ajude vocês.
- Ótimo! Depois que você ligar para ela, nós vamos para aquela casa. - Eu respondi. A raiva que eu sentia agora estava completamente direcionada a uma única pessoa. - A Carmem trouxe um fantasma para me assombrar pensando que eu me encolheria de novo e permitiria que ela me controlasse. Ela só não contava que eu estivesse curado de toda aquela culpa que nunca foi minha.
Enquanto o Dimas se levantou e desapareceu pela porta para ligar para a esposa, eu olhei para o jardim bem cuidado do lado de fora pensando na Eva. Eu precisava contar a ela. Precisava dizer que a Cora nunca voltaria e que foi a última vez que a Carmem nos atingiu.
- Eu sabia que aquela mulher não era a Cora. Até o jeito como ela respira é diferente, o silêncio... tudo era estranho demais. Mas você, Rossi, você viveu na mentira por tempo demais, acreditando que era verdade, cego pela culpa e pela dor. A Carmem não queria apenas o seu dinheiro, ela queria a sua alma presa a ela por uma mentira mal contada. - O Matheus falou finalmente e ele tinha toda razão, eu vivi tanto na mentira que tinha dificuldade em perceber quando tinha uma diante dos meus olhos.
Eu apoiei a cabeça nas mãos por um momento, sentindo o peso daqueles anos que eu perdi desmoronar sobre mim. A Cora morreu naquele hospital, ela já era um cadáver enquanto eu jurava fidelidade a uma estranha queimada. O nível de perversidade da Carmem era abismal, a capacidade de se aproveitar da dor do outro, de se infiltrar na mente das pessoas para conseguir o que queria, era tudo horrível. E então eu pensei na dor que a Caridade estava sentindo enquanto agonizava contando uma mentira para mim, tinha sido difícil para ela, eu me lembrava da voz quebrada e embargada, dos soluços do choro, até que ela se calou e o médico a deu como morta. Ela era uma ótima atriz.
- A Caridade está nos esperando. Ela vai fazer o que você quiser. - O Dimas voltou para onde estávamos.
- Dimas, quando a Caridade falou comigo no hospital, ela fingiu morrer... aquilo me devastou. Você diz que ela é boa, mas aquilo foi cruel. - Eu deixei o meu pensamento se converter em palavras sem nem perceber, mas a resposta dele me pegou de surpresa.
- Ela não fingiu morrer. - Ele me olhou e eu vi dor nos seus olhos. - Ela desmaiou de dor. O rosto dela estava queimado, não deveria ter sido enfaixado e a Morgana apertou demais as ataduras. Ela estava com uma dor tão grande que ela desmaiou, José Miguel.
Naquele momento eu me dei conta de que eu nãop era o único sofrendo naquela sala de atendimento do hospital.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...