Berta mordeu o lábio. A hesitação cruzou os olhos dela, mas no fim ela concordou com a cabeça:
— Então... tudo bem. Obrigada, Adilson.
— Não precisa agradecer. — Adilson apertou o telefone interno. — Hugo, venha aqui.
Logo a porta se abriu e um homem jovem de terno cinza-escuro e óculos de aro dourado entrou. Ele parecia ter mais de trinta anos, com postura ereta e ar calmo.
— Sr. Ferreira. — Hugo Martins parou na frente da mesa, com olhar respeitoso.
— Esta é a Srta. Ramos. — Adilson apontou. — A partir de amanhã, ela vem estagiar no secretariado. Organize as coisas e coloque a Cecília para acompanhá-la.
O olhar de Hugo Martins voltou-se para Berta. Uma ponta de avaliação imperceptível cruzou seus olhos, mas ele manteve o respeito:
— Sim, Sr. Ferreira. Srta. Ramos, que horas é bom para amanhã?
— Às nove pode ser? — Berta se levantou, concordando de leve com a cabeça. — Obrigada, Hugo.
— Sem problemas. — Hugo Martins disse. — Amanhã às nove, vou pedir para a Cecília esperar a senhora no saguão do primeiro andar.
— Obrigada.
Hugo Martins olhou para Adilson de novo:
— Sr. Ferreira, mais alguma coisa?
— Nada, pode ir.
— Certo.
Hugo Martins virou as costas e fechou a porta devagar.
Restaram de novo só os dois na sala.
Berta foi até a mesa, olhou para Adilson, com os olhos cheios de gratidão:
— Adilson, muito obrigada. Eu sei que fazer esse pedido agora talvez não seja adequado, mas eu...
— Tudo bem. — Adilson a cortou. A voz dele trazia cansaço. — Vá para casa por enquanto, venha pontualmente amanhã.
Berta concordou, mas não saiu logo. Ela hesitou e perguntou baixinho:
— Adilson, à noite... quer ir buscar o Erasmo juntos? Dona Giovana o levou para a aula de educação infantil, acaba às cinco e meia.
Adilson olhou para o relógio. Quatro e cinquenta.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, e a frase de Tereza "Amanhã de manhã, às nove, no cartório" piscou em sua cabeça.
Aquela agitação ferveu no peito novamente.
— Tá. — Ele se levantou, pegando o paletó do terno. — Espere um pouco, vou terminar de ver este documento.
— Certo, não tenho pressa. — Berta disse docemente, voltando a sentar-se no sofá.
Adilson sentou-se na mesa, abriu um documento de novo, mas não conseguia ler nem uma palavra.
Berta estava quieta no sofá. O olhar dela caiu sobre o horizonte da cidade lá fora. O pôr do sol estava descendo, pintando o vidro dos prédios altos de dourado.
Na hora em que Adilson abaixou a cabeça para o documento, o canto da boca dela deu uma subidinha que quase ninguém via.
Foi um sorriso tão sutil que quase não dava para perceber. Mas o brilho no fundo dos olhos dela revelou qual era o seu verdadeiro sentimento naquele instante.
Deu certo.

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